Hora da Verdade

Em 2007, já não vai chegar a propaganda. Em 2007, vai ser necessário, finalmente, reformar a sério e a doer.
Ao longo de meses tenho manifestado preocupação com os resultados práticos da acção do Governo. Não o faço por ortodoxia partidária, nem por desejar o insucesso da actual maioria só porque não me identifico com ela. Faço-o porque temo que o pior ainda esteja para vir.

“Governo mais reformista pós-Cavaco”, como alguns propagandistas o têm qualificado, conseguiu, com estardalhaço e muitos sacrifícios dos portugueses, resultados medíocres. Temos o crescimento económico mais baixo da OCDE; somos o país mais pobre da Europa, de quem nos afastamos cada vez mais em qualidade de vida; temos uma consolidação orçamental quase nos 4% do PIB; temos aumento da despesa corrente do Estado; temos a taxa de desemprego acima dos 7%!

Tudo isto com a Europa a crescer duas vezes mais do que nós; com a Espanha – nosso principal parceiro comercial – a crescer a mais de 3% e com superavite; com maioria absoluta no Parlamento e com um Presidente da República em manifesta “cooperação estratégica”. Ou seja, sem desculpas ou álibis. Será legítimo perguntar qual seria o primeiro-ministro que não obteria resultados com a Europa em crescimento, com estabilidade política e com um Pacto de Estabilidade à medida dos tempos que correm? Tenho dúvidas de que alguém fizesse pior!

Daí ter sido normal o discurso de Ano Novo do Presidente Cavaco Silva. Da mesma forma que há semanas estimulou o Governo, desta vez deu voz, com moderação, aos receios da maioria dos portugueses.

Desde a Primavera de 2004 que José Sócrates governa em estrita lógica de conservação do poder a curto prazo. Escolheu um culpado para a crise, o PSD. Convenceu os cidadãos de que a crise só seria vencida com dolorosos sacrifícios. Explorou ao limite a inveja e o ciúme nacionais contra classes profissionais, pretensamente privilegiadas. Anunciou reformas a uma velocidade e variedade que tornaram a maioria delas imperceptíveis.

Contudo, há sempre uma hora da verdade e, no caso do Governo socialista, ela aproxima-se a passos largos. No final de 2007, após a presidência da UE, os portugueses vão exigir resultados. É exigível que Portugal cresça, pelo menos, ao nível da média europeia, e é expectável que, com prudência e sensatez, se aligeire o “apertar do cinto”.
Em 2007, já não vai chegar a propaganda. Em 2007, vai ser necessário, finalmente, reformar a sério e a doer. Na Administração Pública, no Planeamento e Ordenamento Urbano, na Saúde, na Educação e na Justiça.

Em 2007, Sócrates continuará a ter a seu favor o crescimento económico mundial, mais umas vultuosas receitas das privatizações e o início de mais um “envelope” de ajudas financeiras da União Europeia. Em 2007, ficarão, finalmente, claras quais as tendências de voto para as Legislativas de 2009. Os próximos tempos não auguram vida fácil para o primeiro-ministro, ainda com uma importante quota de popularidade. Paradoxos da “real politik”.
Luís Filipe Menezes

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