Chávez, O Vermelho

Depois do colapso da Europa, disfarçado pelo tímido crescimento, segue-se a “estalinização” de parte importante da América Latina.
O facto político mais importante da semana, à escala planetária, é a posse de Hugo Chávez, como presidente da Venezuela, para um mandato que se estenderá até 2013.

Chávez já anunciou uma nova denominação para o Estado venezuelano – agora passará a chamar-se República Socialista da Venezuela, segundo ele “inspirado nos ensinamentos de Marx, Lenine e da Bíblia!”; já declarou a intenção de nacionalizar de imediato toda a economia, nomeadamente os sectores estratégicos das telecomunicações e da electricidade; já avisou que vai avançar para um controlo draconiano do Banco Central.

Paralelamente, lançou-se numa ofensiva diplomática que vai aumentar a sua influência em toda a região. Prometeu ajuda económica à Nicarágua, agora presidida pelo ex-líder sandinista, Daniel Ortega. Apoia as posições políticas do débil Equador, face à sua vizinha Colômbia. Faz frente com o marxismo boliviano e aconselha e ajuda o debilitado líder interino cubano, Raul Castro.

É paradoxal como Lula da Silva, com todas as condições para se tornar um líder regional de importância universal, foi suplantado pelo populismo voluntarista de Chávez.

Os olhos de todos os “nichos” comunistas, a viverem numa lógica de sobrevivência político-eleitoral, vão-se virar para as Américas. Será de lá que irradiará, nos próximos anos, o “sol” para milhões de almas que ainda não querem compreender a História e que acham que o colapso do império soviético se deveu a erros de método.

Chávez é inteligente e foi subestimado pelos seus poderosos vizinhos, principalmente pelos EUA. Quinto produtor mundial de petróleo em época de grande procura e preços elevados, conseguiu crescimentos económicos recordes - este ano será 10% do PIB! Em simultâneo, apostou numa política social activa virada para as dezenas de colmeias humanas dos subúrbios das grandes cidades venezuelanas, onde milhões vivem em condições sub-humanas idênticas às favelas brasileiras.

Neste momento é necessário compreender as razões profundas que justificam este “milagre”, já que, quanto aos resultados finais, esses são mais do que previsíveis. O sucesso de Chávez, para além do seu “milagre económico”, deve-se a outros factores: ao falhanço de uma política ocidental coerente de apoio ao desenvolvimento da América Latina e à falta de ideologia e de princípios de uma globalização selvagem que só se preocupa com o lucro fácil e com quem está disposto a consegui-lo a qualquer preço - principalmente a Leste e a Oriente.

Depois do colapso da Europa, disfarçado pelo tímido crescimento económico, segue-se a “estalinização” de rosto humano de uma parte importante da América Latina.
O que será necessário para que as lideranças ocidentais desçam à terra e percebam que não é nos manuais de economia ou de contabilidade que vão encontrar a solução para uma mais justa nova ordem mundial?
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

← voltar

Deixe Uma Resposta