José Sócrates continua a ter índices de popularidade muito significativos, apesar de o seu Governo estar, desde a sua posse, em guerra contínua com os mais influentes grupos sociais.
As querelas com autarcas, médicos, magistrados, professores ou funcionários públicos foram formalmente violentas, significaram cercear direitos ancestrais de classe ou de grupo e, paradoxalmente, só reforçaram a posição do primeiro-ministro. Sem se perceber este aparente milagre, nunca se conseguirá ser eficaz a conduzir uma oposição credível.
O líder do Executivo atingiu este patamar de impunidade política por várias razões. Porque os portugueses distinguem entre grupos sociais e socioprofissionais e as suas lideranças, muitas delas desacreditadas e anquilosadas. A verdade é que, em muitos casos, professores, médicos, funcionários apreciam menos os seus eternos líderes de classe do que as eventuais “malfeitorias” da governação.
Porque as qualidades humanas do português médio também escondem algumas entorses seculares de personalidade e carácter. O português é tolerante, solidário e generoso, mas também ciumento e mesquinho, nomeadamente sempre que alguém lhe acicata esses impulsos. Nunca ninguém antes o havia feito com a precisão do actual Governo.
Evidenciar o pequeno privilégio de que usufruem militares ou forças de segurança, a pequena benesse que privilegiava os jornalistas, as “vantagens” dos apoios sociais concedidos a professores ou magistrados, consegue, de imediato, desencadear um sentimento bem português, a inveja. Paralelamente, o Governo tem sabido esconder que muitas dessas “vantagens” mais não eram do que a caracterização legitima de estatutos específicos ligados à condição, também ela muito especial, do exercício de algumas das mais nobres, responsáveis e perigosas funções do Estado.
Final e principalmente, a atitude de José Sócrates no exercício do poder. O primeiro-ministro passou ao País uma imagem de autoritário, de obstinado, de friamente circunspecto. De que tem “a certeza” sobre a bondade de tudo o que defende. A imagem de “frade laico”, que a nossa idiossincrasia colectiva aprecia ver na liderança do Estado. Os adversários de Cavaco Silva nunca entenderam que favores lhe haviam feito, quando lhe atribuíram uma frase que nunca terá sido pronunciada: … “raramente me engano e nunca tenho dúvidas”. Os adversários de Sócrates concedem-lhe a mesma bênção quando o acusam de ditador, autista e insensível às críticas.
Em cima disso, Sócrates tem também a imagem do homem normal. Há dias, disse que havia 50 mil portugueses como Sócrates e tal foi interpretado como sendo um carimbo de mediocridade. Pelo contrário, acho que um “homem providencial mas aparentemente comum” é o mais perigoso dos adversários.
Contudo, Sócrates é derrotável. E, com competência, já em 2009. A estratégia passa por mostrar que, por trás da forma, o conteúdo e os resultados são medíocres. É necessário mobilizar directamente o povo e esquecer as lideranças corporativas. É preciso lutar todos os dias e colocar o dedo na ferida durante todo o tempo.
Porquê o aumento de impostos?; porquê portagens nas Scuts?; porquê a diminuição das pensões?; porquê a Ota e o TGV?; porquê o aumento do desemprego?: porquês destruição do Estado Social? Porquê, eng° Sócrates?
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã
