A Guerra das Estrelas

O primeiro-ministro faz do culto da imagem o centro da sua actividade política. Para além de bem assessorado nessa área, tem demonstrado um talento indiscutível para desempenhar o papel de uma espécie de Luke Skywalker do Portugal de hoje.

Tal como o jovem herói da primeira saga de “Star Wars”, descolou, com pouco pudor, de uma “família” e de um “pai” que desbaratou, entre 1995 e 2001, a conjuntura ideal para reformar o Estado e conquistar a competitividade ansiada.

Tal como o jovem Luke, é doce mas duro, é ingénuo mas determinado.

Tal como Luke gostava das “brutalidades” do Chewbacca e do voluntarismo pouco responsável de Han Solo, mas descolava formalmente deles, Sócrates comporta-se da mesma forma em relação aos seus subordinados. Paira na estratosfera de boas notícias para 2050, teoriza sobre o aquecimento global e dialoga com líderes poderosos sobre o futuro da galáxia. Desemprego, crescimento económico fictício, voos da CIA, contínuo assalto fiscal, investimentos megalómanos e injustificáveis já são matéria para figurantes secundários.
Tal como na genial série de George Lucas, Sócrates arrisca-se a mimetizar o jovem protagonizado pelo pequeno Mark Halmmil e a ser esquecido uma vez terminada a história.

As memórias ficam quase sempre ligadas aos que mudam o rumo das coisas, para o bem e para o mal. Dos vinte anos que durou a extraordinária fantasia de Lucas, gerações de fãs ficaram perenemente prisioneiras do malvado Imperador, do fascinante Anakin e da sua versão malévola, o poderoso Vader, dos poderosos e incorruptíveis Jedis. Do “simpático” Luke ficou ténue e apagada recordação. Porque as suas boas intenções nunca foram suficientemente consequentes.

Mas tal como o último dos seis episódios da “Guerra das Estrelas” trouxe um juízo final o do actual primeiro-ministro também acontecerá. Muito mais rapidamente do que se esperava. Em Agosto de 2001, ninguém sonharia que um Verão particularmente quente não secaria o pântano que António Guterres anunciaria ao País em Dezembro.

Os editorialistas começam paulatinamente a descolar da incerteza. Os principais líderes de opinião já não escondem as críticas. Os ex-apoiantes, como o anterior Ministro das Finanças, já se sentem confortáveis para iniciar um ajuste de contas.

O povo, esse, com cada vez menos euros, para cada vez mais impostos, taxas, e aumento do custo de vida, começa a perceber que não chega viver do ciúme e da inveja com que o actual Governo vira diariamente Portugueses contra Portugueses.

Até o marketing começa a pisar o risco e a assumir erros grosseiros que só não se transformam em polémica desgastante, porque a comiseração para com Sócrates é muito diferente da que havia, por exemplo, para com Cavaco Silva.

Na China, tal como no Rio e em Luanda, o primeiro - ministro foi fazer uma corrida matinal para jornalista ver. No peito, em letras garrafais, desenhada numa exuberante t-shirt, propagandeava a multinacional Adidas. Não me consta que fosse para desculpar a indústria de contrafacção chinesa e não era, com certeza, para hostilizar a Nike e a Puma.

Terá sido para branquear a pequena ingenuidade de Manuel Pinho?

Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

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