Dava os primeiros passos como deputado, à época mais virado para a política de Saúde em virtude da minha condição de médico, quando “conheci” o actual ministro, Correia de Campos. Não pessoalmente, mas através dos seus livros e textos de opinião, que eram uma espécie de “bíblia” para a maioria dos alunos que passava pela Escola Nacional de Saúde Pública.
Os seus escritos expressavam então concepções doutrinárias bem mais estatizantes e “humanizadas” do que as que hoje defende. Contudo, o rigor das análises e a exactidão dos números transformavam esses escritos em documentos de referência.
Mais tarde apreciei a forma como procurou introduzir equilíbrio à recta final do consulado ”guterrista”. Hoje, não deixo de apreciar o homem e o teórico, mas fico abismado com os erros políticos que tem vindo a acumular.
Os dossiês do encerramento das maternidades e, agora, das Urgências, têm sido geridos de uma forma tão atabalhoada que um ”agente infiltrado” da Oposição não faria melhor.
Não está em causa a necessidade de racionalizar meios, que inevitavelmente passaria pela desactivação de alguns destes serviços.
Está em causa a insensibilidade política de quem olha para a realidade fria dos números, seja doentes/dia ou quilómetros a percorrer, da mesma forma no interior e no litoral, na grande cidade e na aldeia recôndita.
Está em causa a falta de sensibilidade política para soluções que façam de autarcas e profissionais de saúde aliados do processo.
Está em causa a falta de capacidade política para assegurar alternativas, em muitos casos com recurso a parcerias público-privadas, que permitiriam a manutenção de muitos dos equipamentos existentes.
Casos como os de Barcelos ou Elvas, particularmente maltratados no caso das maternidades, deveriam ter servido de lição para a problemática das Urgências. Infelizmente não foram e o ”diálogo à pressão” veio evidenciar a fragilidade de quem se precipitou e teve de recuar na praça pública face à genuína indignação popular, colocando ainda em causa a credibilidade de todas as medidas.
Em muitos casos, é patente que os protocolos negociados se vão traduzir, paradoxalmente, num aumento de despesa face aos custos de funcionamento dos serviços a encerrar.
Igualmente, as atoardas destemperadas da secretária de Estado da Saúde, que ameaçou de retaliação os autarcas cujas populações foram legitimamente para a rua protestar, são indesculpáveis. Em primeiro lugar, porque essas populações têm esse direito, quando enquadrado legalmente. Em segundo, a secretária de Estado deveria saber que as mobilizações populares resultam, a maioria das vezes, de sentimentos espontâneos de indignação.
Correia de Campos não é, porém, o principal responsável. Esse chama-se José Sócrates, e é primeiro-ministro. Um primeiro-ministro que festeja um crescimento económico de 1,2%, mesmo sabendo que é o mais baixo da Europa; que lança fogo-de-artifício porque o número de processos em trânsito nos tribunais diminuiu 0,4%. É um estilo. O estilo de quem quer condenar Portugal a ser feliz com os serviços mínimos.
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã