Ser ou não ser

O “Correio da Manhã” tornou público que Paula Teixeira da Cruz, presidente da Comissão Política Distrital de Lisboa do PSD, usufruiu nos últimos anos de remunerações da Universidade Atlântica, no valor de 125 mil euros (25 mil contos). A Câmara de Oeiras é uma das accionistas da referida universidade e a colaboração da jurista ter-se-á iniciado no momento em que Marques Mendes era presidente da dita instituição.

Apesar de me parecer excessivo que alguém possa, por colaborações de meia dúzia de horas/ano, ter remunerações complementares que triplicam o salário médio nacional para um mês de árduo trabalho, não coloco em causa a transparência de tal vínculo. A seriedade da pessoa em causa está acima de qualquer suspeita e só a sua consciência e os critérios de gestão da referida instituição poderão aferir se esse “ordenado” é ou não justificável. Todavia, o caso em apreço merece uma outra abordagem.

Os titulares de altos cargos públicos têm incompatibilidades draconianas e são obrigados a tornar públicos os seus rendimentos. Não seria exigível que tal devassa fosse também alargada aos titulares de cargos de liderança político-partidária? É óbvio que um membro de um órgão nacional ou um presidente de uma estrutura regional importante de um partido de poder, como é o caso, é sempre um interlocutor e um emblema apetecido para um grupo económico, para uma empresa e até para uma autarquia.

Por outro lado, é igualmente óbvio que muitos desses dirigentes, passando a vida a encher a boca com o seu estatuto de profissionais muito requisitados, que os dispensa do incómodo de ocupar cargos de direcção política cronicamente mal remunerados, acabam por usufruir do conforto de um somatório de ‘anónimas’ e chorudas avenças. A bem da clareza, era saudável que a lei se adaptasse a esta realidade. Fica a sugestão.

Um outro jornal noticiou que “Marques Mendes já controla 17 distritais e meia” e daí decorria uma verdade absoluta: Marques Mendes ganharia largamente qualquer eleição directa. É triste que estes raciocínios se possam fazer e é absurdo e leviano que sejam objecto de notícia. Mesmo que tal facto fosse verdade, é um completo disparate pensar que 17 pessoas mandam na consciência de mais de 100 mil. Acresce que tal notícia é deturpada por ignorância ou má-fé.

Em distritos como Aveiro ou Guarda, as vitórias obtidas foram por escassos votos num universo eleitoral de mais de um milhar de votantes. Ao contrário do noticiado, a maioria dos presidentes referenciados são cidadãos livres e genuinamente independentes, além de que uma vintena de concelhias tem mais militantes do que uma dezena de distritos.

A manipulação da realidade está na moda e tem conivência em muitos órgãos de Comunicação Social. Praticam-na o Governo e as lideranças partidárias. Trata-se de um exercício aviltante, mas de uma grande perda de tempo. O povo não se deixa enganar e o futuro de Sócrates, de Marques Mendes ou de Ribeiro e Castro está ligado ao que o povo pensa do seu trabalho. Tudo o mais pode dar alegrias de circunstância, mas não condicionará o destino.

Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

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