Dezenas de milhar de portugueses acabaram de prestar um péssimo serviço ao primeiro-ministro: descredibilizaram as sondagens em que tem assentado o mito da popularidade de José Sócrates.
Dezenas de milhar de portugueses entronizaram Salazar e Cunhal como os portugueses mais notáveis de sempre. Em terceiro lugar na lista de preferidos foi eleito um diplomata, Aristides Sousa Mendes, cujo espírito humanista não se
questiona, mas que é um ilustre desconhecido para a maioria dos nossos cidadãos.
Na cauda da tabela ficaram personalidades de dimensão universal como o Infante D. Henrique, D. João II, Vasco da Gama, Luís Vaz de Camões ou Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal.
Fora dos ‘dez mais’ ficaram nomes perenes da nossa cultura, como Eça de Queiroz e o Padre António Vieira, da nossa epopeia descobridora, como Afonso de Albuquerque, da nossa identidade pátria como D. Nuno Álvares Pereira, e tantos outros vultos de uma nação com mais de oito séculos.
Todos sabemos que se tratou de uma auscultação cujos métodos, apesar de auditados, podem ser discutíveis. Todos sabemos como em certos sectores mais militantes funciona um disciplinado sindicato de voto. Tudo isso é verdade, mas, mesmo a brincar, este resultado envergonha-nos como nação.
Salazar não foi o ‘monstro’ que alguns querem fazer crer. À sua maneira, foi alguém que amou Portugal,
que equilibrou as finanças públicas e evitou o nosso envolvimento na II Guerra Mundial. Contudo,
anestesiou o País sob o manto de uma ditadura pacóvia e rural, cujos resultados nos levaram, em pleno
século XXI, a um estado de desenvolvimento que, em muitos parâmetros, nos aproxima dos países mais
atrasados da Europa.
Álvaro Cunhal, cuja dimensão intelectual não se questiona, esconde por trás do romantismo de uma vida
clandestina um currículo de conivência com purgas e afastamentos sumários de milhares de camaradas de
partido, cujo único ‘pecado’ era o de duvidarem do ‘rumo à vitória’. Para além de ter defendido até ao fim a
saga estalinista que criou os ‘gulags’.
Porque fizeram então tantos portugueses estas escolhas? Muitos tê-lo-ão feito por militância, mas, muitos
outros, fizeram-no por protesto e revolta. Contra uma classe política desacreditada, contra projectos sem
alma, contra um futuro de expectativas medíocres.
Sócrates é um democrata, mas nada nos diz que o ‘apoio’ das sondagens à sua governação não tem o
mesmo significado.
O verdadeiro Portugal ainda é o que rejubila com a batalha de Ourique, com Aljubarrota, com a epopeia dos
Descobrimentos e tantos outros momentos heróicos. Este País nunca se reverá duradouramente num
poder político cinzento, trapalhão e sem grandeza, como o que vivemos.
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã
