No momento em que estou a escrever este texto desconheço as explicações que o primeiro-ministro dará sobre a polémica que tem envolvido a sua licenciatura. Sinceramente não me parece que possa ser acrescentada alguma coisa que altere o essencial do que merece ser apreciado e que resumiria nos seguintes pontos: há neste caso algo que mine a credibilidade pessoal e política do chefe de Governo? O que justificará o silêncio da maioria da classe política? O que devem os portugueses pensar sobre a idoneidade do seu Ensino Superior, nomeadamente do privado?
Quanto à primeira questão, a resposta, com os dados disponíveis, é simples: o primeiro-ministro, fruto das vicissitudes da sua vida pública, precocemente assumida, formou-se tardiamente. Dadas as condições de base de que partia, não pode ser considerado um caso de sucesso escolar. Até aqui, nada de relevante, nada que possa beliscar as qualidades e probidade para o exercício do cargo.
Mais questionável já é a questão de ter decidido terminar o curso numa universidade privada, que, sabe-se agora, de credibilidade duvidosa, num momento em que era membro do Governo. Independentemente da capacidade para exercer as exigentes funções de secretário de Estado e, em simultâneo, cursar engenharia, recomendaria o senso comum que tal não tivesse ocorrido.
Não estou a ver José Sócrates a meter cunhas para terminar o curso, todavia, é óbvio que se questionará sempre a eventual benevolência decorrente da situação de membro do Governo.
Abordemos agora o segundo facto relevante: o silêncio ensurdecedor da maioria da classe política! Não se trata de um silêncio, mas sim de uma ópera muda, particularmente harmoniosa, apesar de tocada e cantada por centenas de ‘músicos’ que nem se conhecem.
De facto, muitas das universidades privadas, para além dos conhecidos “casos de polícia”, mais não serviram do que para dar títulos académicos a profissionais pouco qualificados e, em muitíssimos casos, para servir de porto de abrigo – profissional e material – a uma parte alargada da classe política mais ‘profissionalizada’ e mais avessa às vicissitudes da exposição ao sufrágio popular. Não admira que só Pacheco Pereira, Louçã e Santana Lopes, todos diferentes mas todos razoavelmente descomprometidos, se tenham manifestado! Terceira e última questão: o estado a que chegaram tantos estabelecimentos de Ensino Superior. O despacho do ministro Mariano Gago fala na “situação calamitosa a que chegou a escola”! Mas o Estado que lhes concede alvarás de funcionamento não as devia avaliar com rigor? Pode limitar-se a lavar as mãos como Pilatos?
Um dia, estas trapalhadas vão ser julgadas. Pelo menos, pela imensidão de jovens desempregados a quem venderam a ilusão sobre as virtualidades de um canudo.
Post scriptum – É óbvio que existem algumas boas universidades privadas – como, entre outras, a exemplar Universidade Católica, a Fernando Pessoa ou a Lusíada – e bons professores em muitas delas, independentemente de serem ou não políticos na reserva.
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã
