Lá vai Lisboa

A Câmara de Lisboa vive há dois anos sob o signo da ingovernabilidade. Liderada pelo maior partido da Oposição, transformou-se num dos principais obstáculos à sua afirmação enquanto bloco alternativo de poder.
Para o povo, os juízos são sempre simples e de senso comum: como pode querer governar o País quem tão má conta do recado dá no mais simbólico município nacional?

Esta dedução é tanto mais linear quanto o projecto de poder do PSD na capital responsabiliza, inequívoca e pessoalmente, o presidente do PSD: dada a forma como a liderança camarária foi escolhida, dadas as repetidas e públicas intervenções dirigistas na autarquia, que transformaram Carmona Rodrigues, aos olhos da opinião pública e portanto do julgamento político, num mero instrumento das opções oriundas da S. Caetano.

Escassas horas após ser eleito presidente, no Congresso de Pombal, o líder do PSD chamou Santana Lopes e comunicou-lhe que não seria candidato a Lisboa. O novo candidato seria Carmona Rodrigues, vice-presidente da autarquia. Esta “fatwa” visava vincar um novo ciclo em que se cortavam as amarras com um período de “trapalhadas”, como foi classificado, consubstanciado numa liderança dita emocional e pouco rigorosa.

Era prometida uma sublimação desse passado, através de uma equipa e de um estilo que se coadunavam com a postura politicamente assumida pelo novo líder nacional. Chegava ao poder a “competência técnica”, o “rigor”, a “sobriedade de atitudes” e o “sucesso da governação”.

Na altura, marquei as minhas distâncias e avisei. Avisei que era precipitado não parar um pouco para pensar. Avisei que quem trata com menos dignidade os seus corre o risco de mais tarde ser enjeitado de igual forma. Avisei que seria um grande risco colocar Lisboa nas mãos de alguém sem nenhuma experiência política. E que não era de bom augúrio dividir radicalmente as bases partidárias lisboetas.

Semanas após a vitória, ainda não se tinha uma solução de governabilidade. Ainda se hesitava entre a CDU e o CDS! Depois foi o que se sabe: as histórias dos assessores, a novela da SRU do Chiado, a ruptura do acordo com Nogueira Pinto, os inquéritos autoflageladores contra companheiros de partido e, agora, o “caso” Bragaparques, com dois vereadores constituídos arguidos e o presidente em vias de o ser.

Não me metendo nas questões judiciais, até porque, ao contrário da direcção do PSD, considero que todo o cidadão deve ser considerado inocente até que uma sentença transite em julgado, não posso deixar de lamentar tamanha trapalhada.

Trapalhada para a qual só existe uma saída: convocar eleições em Lisboa e cerrar fileiras à volta de uma candidatura ganhadora.

Mas como não sou nem hipócrita, nem ingénuo, também sei que dificilmente uma candidatura ganhadora será gerada sob a actual direcção partidária. Infelizmente, em Portugal, ainda não há o hábito de assumir as consequências da responsabilidade política objectiva, face a um clamoroso falhanço de gestão política. Se existisse, talvez ainda fosse possível salvar Lisboa e devolvê-la a uma gestão competente liderada pelo PSD.

Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

← voltar

Deixe Uma Resposta