O futuro de Lisboa

A liderança da Câmara de Lisboa já gerou um Presidente da República, um primeiro-ministro e um candidato a líder do PS.

Estes dados confirmam a ideia de que, legitimamente, a apetência para governar a cidade capital do País é também um passaporte para toda e qualquer ambição de afirmação política. Assim, é compreensível que nenhum partido político visse com bons olhos a crise decorrente da queda do actual executivo. Escolher neste momento um candidato à ocupação desse cargo consagra pois um factor de perturbação de um futuro que se antevia, nessa frente, muito mais calmo e previsível.

Como se tal não bastasse existem factores de conjuntura que tornam esta batalha penosa para todos os principais partidos.
Paulo Portas desejaria tudo menos ter de contar votos escassas semanas após o seu polémico take over partidário. Um mau resultado ressuscitará todos os fantasmas em que assentaram as críticas de Ribeiro e Castro. O PCP e o Bloco de Esquerda pagariam para não ter de, neste momento, contar espingardas e reequacionar equilíbrios numa cidade onde reside um dos seus maiores pilares eleitorais. O PS tinha tudo menos interesse numa rigorosa frequência intercalar, quando estava preparado para só ser julgado no exame final, previsto para a Primavera de 2009. O PSD não desejava, com certeza, um cenário que pudesse colocar em causa a sua liderança no mais emblemático município de Portugal, retaguarda estratégica fundamental para um grande partido de poder. Convém recordar que foi nesse reduto que se barricou e satisfez as suas clientelas o PS durante a década de governação Cavaquista. Ou seja, é complicado ser oposição ao mesmo tempo no País e em Lisboa.

Conclusão óbvia: inopinadamente, esta Primavera todos vão ter de fazer das tripas coração, já que o resultado da anunciada disputa poderá vir a condicionar o futuro de lideranças partidárias e nacionais, bem como o reajustamento de posições relativas dentro de todos os partidos e respectivas famílias políticas.

A tarefa do PSD parece ser a mais complicada, mas, até por isso, a mais aliciante. O PSD tem tudo a ganhar em procurar transportar a disputa para uma escala global, fazendo com que as temáticas de política nacional condicionem o debate. Matérias como a problemática da construção do novo aeroporto, o emprego, a educação ou a saúde devem ser privilegiadas em detrimento das questões eminentemente locais.

O pior que poderia acontecer aos sociais-democratas seria deixarem-se cair na armadilha de andar dois meses a discutirem a crise que suscitou as eleições, a situação financeira da autarquia, o túnel do Marquês ou o Parque Mayer. Seria igualmente imperdoável que, para uso exclusivamente interno, se persistisse num inconsequente e injusto ajuste de contas com o passado. Para que tal não aconteça e para elevar para o patamar desejado a fasquia do debate, o PSD tem de entrar em campo com uma primeira linha. Será pois no dia em que tornar pública a figura do seu candidato que se desenhará o essencial do futuro próximo do maior partido da oposição. O futuro em Lisboa e em Portugal.

Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

← voltar

Deixe Uma Resposta