Os espinhos da Rosa

Por diversas vezes o actual primeiro-ministro tem sido acusado de ter em mente a institucionalização de um poder pessoal, nos limites do tolerável.

Também, de forma repetida, o ataque à sua governação tem passado por críticas em que o acusam de ser um mestre da propaganda, por detrás da qual só existe incapacidade política.

Não subscrevo esta forma de abordar um discurso de oposição. Por não ser verdadeiro, ou pelo menos porque a maioria dos portugueses não o sente como verdadeiro. E porque é ineficaz.

O que é verdadeiro é que ao fim de dois anos de Governo os resultados apresentados são, não só medíocres, como esqueceram os compromissos eleitorais de José Sócrates.

Com um crescimento económico incipiente, o mais baixo da OCDE, instituiu-se um clima de ‘esperança mínima garantida’. Quanto ao programa eleitoral de 2005 estamos conversados. Dos prometidos 150 mil postos de trabalho à não subida de impostos, do compromisso de não tocar em direitos sociais à introdução de portagens nas Scut, pouco ou nada se cumpriu do discurso cor-de-rosa. As prestações conseguidas são tão mais insuficientes quanto o clima político, económico e social envolvente melhorou substancialmente. A Europa começou a crescer de forma mais nítida; o Pacto de Estabilidade e Crescimento afastou a exigência do défice orçamental de 3% do PIB; o preço do petróleo caiu e a UE, depois do terramoto do ‘não’ francês e holandês ao novo tratado institucional, começou a navegar em águas mais tranquilas.

O primeiro-ministro está a falhar e a adiar por vários anos o desejo dos portugueses de verem o País caminhar para metas de maior modernidade e competitividade. Mas este falhanço tem outras razões.

Está a falhar porque confunde tiques de autoridade pessoal com rigor e autoridade do Estado. Está a falhar porque continua a acreditar que o socialismo, qualquer socialismo, é a receita adequada para os problemas do País. Nunca como hoje houve um modelo tão estatizante para a Educação e para a Saúde. Nunca ninguém tinha ido tão longe na blindagem do monopólio do Estado no sector do Ambiente. Nunca ninguém tinha exercitado uma visão tão centralista no exercício do poder. Nunca ninguém tinha persistido tanto no relançamento da economia assente na tentativa de equilibrar as contas públicas à custa de cortes no investimento, sendo incapaz de emagrecer o Estado e começar a enfrentar com coragem os cortes radicais da despesa pública. Soma-se a isto os tiques de autoritarismo.

Nos últimos dias evidenciaram-se dois em particular. O excesso de zelo que conduziu à instauração de um processo disciplinar a um professor que terá gracejado sobre as habilitações académicas do primeiro-ministro e a ligeireza com que, a dois anos das eleições autárquicas, se colocou o governante responsável pelas autarquias na dependência directa de Sócrates.

Ainda bem que neste ciclo político, a economia, por si só, já não decide vitórias eleitorais: como se viu com o PP espanhol, como se viu com Sarkozy e como, provavelmente, se verá com o seu amigo Zapatero. Só Sócrates é que ainda não reparou.

Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã

← voltar

Uma Resposta a “Os espinhos da Rosa”

  1. A.Pedro Pinto diz:

    Senhor Dr. Filipe Menezes

    Agora o que mais gostaria era vê-lo a 1º Ministro de PORTUGAL.

    Cumprimentos
    A.Pedro Pinto
    PNF

Deixe Uma Resposta