Quando foram marcadas as eleições intercalares para a Câmara de Lisboa, afirmei a intenção de me silenciar, até 15 de Julho, sobre questões partidárias. Assim faria se não verificasse que todos aqueles que contribuem para a lenta agonia do meu partido aproveitam o meu silêncio para maquinarem os seus propósitos mais ínvios.
Propósitos que passam por perpetuar um statu quo medíocre, até que tenham as suas próprias soluções para se afirmarem como alternativa. Propósitos que passam por continuar a fabricar lideranças nos seus laboratórios de interesses. Propósitos que passam pela tentativa de condicionar a leitura que a opinião pública faz da nossa realidade partidária.
Os mistificadores do quotidiano são os mesmos de sempre. Meia dúzia de prosadores semanais, com sete dias úteis para cerzir a sua permanente e malévola defesa de privilégios e alguns entertainers televisivos, que aliam uma irrecuperável falta de carácter à frustração de nunca terem alcançado nada, por si próprios.
Mas qual foi a gota de água que me obriga a esta reflexão pública? Quinta-feira dia 14 escrevi num diário de grande expressão nacional uma crónica onde dizia que o combate da Ota tinha sido perdido para uma “sociedade civil”, articulada com José Sócrates. Porque, mais uma vez, o PSD tinha abdicado de assumir com clareza uma alternativa. Já o tinha afirmado na festa do 1.º de Maio dos TSD, em 2006. Nessa crónica, disse, igualmente, que era urgente abrir o debate sobre o TGV, um imprudente investimento de 7,5 mil milhões de euros, de duvidoso retorno económico. Nesse dia à noite reafirmei-o num debate na SIC Notícias.
Sábado, numa pomposa primeira página, era noticiado que Marques Mendes ia abrir o dossier TGV, para o que havia nomeado um grupo de trabalho! No interior, nem uma referência a quem, dias antes, tinha avançado com esse debate! A habitual desonestidade intelectual. Aliás, esta direcção do PSD, falha de ideias e imaginação, tem tido pouco pudor em pôr os ovos em ninho alheio.
No congresso de Pombal, em 2005, defendi a institucionalização do sufrágio directo e universal para a eleição do líder. Marques Mendes opôs-se drasticamente à proposta. Dois meses depois estava a adoptá-la com entusiasmo.
Nesse mesmo congresso discordei de um referendo europeu, condenado pelo que se estava a passar em França e na Holanda. Marques Mendes teimou em defender a sua realização para a data das eleições autárquicas. Semanas depois teve que recuar, ou melhor, esquecer o assunto.
No dia em que Carmona Rodrigues foi constituído arguido, declarei, em directo a Mário Crespo, que as eleições antecipadas em Lisboa eram inevitáveis. Fui, de imediato, fustigado. Uma semana depois, foi a direcção do PSD que veio exigir um novo acto eleitoral na capital.
Tudo isto até seria aceitável, não fora conseguirmos o milagre de, perante uma maioria governativa desacreditada, descermos nas sondagens.
Não tenhamos ilusões. O país está desiludido com um primeiro-ministro autoritário e arrogante, com um executivo cujas trapalhadas se sucedem a um ritmo alucinante - da DREN ao “deserto”, com um crescimento económico insípido, para o qual já despertou o Presidente da República, com um desemprego galopante.
Só que não vale a pena enterrar a cabeça na areia. Esta liderança do PSD nunca será a alternativa. O país sabe-o. Os militantes reconhecem-no. Os autarcas, abandonados à sua sorte, angustiam-se perante um acto eleitoral que, em 2009, vai ser em cima da legislativas. Uma vitória do PS nas legislativas pode arrastar muitos e bons presidentes de câmara para a derrota.
Tal como Sá Carneiro enfrentou Emídio Guerreiro e Sousa Franco; tal como Cavaco Silva enfrentou Mota Pinto, é a hora de alterar um percurso que só pode conduzir a um resultado catastrófico e à consolidação de um poder socialista prolongado.
Precisamos de combate, coragem, entusiasmo e carisma. Precisamos de vencer debates parlamentares, de ter posições frontais e atempadas sobre tudo, do aborto à regionalização, das finanças locais ao QREN.
Não podemos deixar a “rua” ao PCP e ao Bloco de Esquerda. Não podemos transformar arguidos em acusados, ou pior, erigir como bons arguidos os que nos apoiam e como criminosos os que nos são hostis.
Não podemos mendigar pactos de regime, devemos antes vincar as nossas diferenças em relação ao PS. No conceito de Estado social, na reforma da administração pública, na justiça, na saúde, na educação, no ambiente.
Não podemos ver uma direcção nacional a esboroar-se diariamente em demissões sucessivas. Vice-presidentes já vão três, e mais dois vogais!
As eleições em Lisboa terão que ser o limite a suicídio colectivo. Apesar de um entertainer domingueiro já estar a preparar o país para poder reclamar vitória com um resultado que ronde os 20%, o PSD profundo não se vai deixar enganar. Perder é ter menos um voto, ganhar é ter mais um voto do que o segundo. O PSD tem um grande candidato, tem em Lisboa umas bases fabulosas, conseguiu nas sondagens atingir um patamar que permite acreditar na vitória. É pois óbvio que, se tal não acontecer, o responsável tem um nome, Marques Mendes, que terá de retirar as conclusões por ter gerido de forma pouco responsável um dossier vital.
É bom não esquecer que, nos últimos 20 anos, só em dois o partido na oposição nacional não liderou Lisboa, e esse cenário é dantesco para quem tem ambições de governo.
Em 15 de Julho falaremos, mas chegou a altura de os militantes mandarem mais que os analistas e os entertainers, e de acreditarmos que a força da nossa razão nos pode conduzir de novo à liderança do governo de Portugal. Um PSD à Sá Carneiro e à Cavaco Silva consegui-lo-á.
20.06.2007, Luís Filipe Menezes
Presidente da Câmara Muncipal de Vila Nova de Gaia e conselheiro nacional do PSD
in Público
