Amavelmente, o Centro de Estudos Camilianos, em S. Miguel de Seide, Famalicão, onde tenho grandes amigos, convidou-me para participar no ciclo “Um livro, um filme”. Confesso que o convite me fez reflectir. Desde muito novo que o vício da leitura e do cinema me tornou um compulsivo coleccionador de livros e filmes. O que escolher, então? A listagem que, com rigor profissional, o Director da Casa-Museu Camilo Castelo Branco, Dr. José Manuel Oliveira, me fez chegar, não ajudou. De entre os diversos livros que deram origem a filmes já escolhidos por outras personalidades, estavam alguns que teriam merecido a minha eleição. No entanto, a Maria João Avillez, com “O Leopardo”, e o José Pacheco Pereira, com “Blade Runner”, que recentemente celebrou os 25 anos da sua realização, anteciparam-se. Não é fácil escolher um filme baseado num grande livro. Não há muitos. Talvez por isso esta iniciativa. Escolhi “O Nome da Rosa”, escrito por Umberto Eco, em 1980, e que se tornou um êxito editorial de dimensão mundial. O filme, realizado pelo francês Jean-Jacques Annaud, cujo orçamento foi considerado o maior de sempre, também se constituiu um gigantesco êxito de bilheteira.
Não sendo um crítico literário nem cinematográfico, centrei a minha intervenção, na simpática companhia do presidente da Câmara de Famalicão, Arq. Armindo Costa, na descodificação de algumas mensagens do filme que me pareceram mais relevantes: a parábola existente entre a crise de valores vivida na Idade Média (época retratada na película) e a actualidade; a crítica ao poder e ao esvaziamento dos valores pela demagogia; a violência sexual; os conflitos no seio dos movimentos heréticos; a luta contra a mistificação e o poder. A própria escolha do actor para representar o personagem central, o monge franciscano William de Baskerville, interpretado por Sean Connery, também suscitou uma abordagem, pela sua curiosidade.
Enfim, uma noite de sexta-feira longe do bulício político-partidário, longe do bulício citadino, quase longe de tudo. No meio de uma genuína ruralidade onde se situa a Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, onde se “faz” cultura sem grandes recursos financeiros e perante (voilá!) quase uma centena de pessoas.
Percebo agora porque é que esta iniciativa já contou com a participação de prestigiadas personalidades da vida social e política portuguesa, como José Miguel Júdice, José Pacheco Pereira, Maria João Avillez, o cinéfilo Mário Augusto e o jornalista Carlos Magno, e, em Setembro, lá estará, o cineasta António-Pedro Vasconcelos, e, em Outubro, o jornalista, poeta, escritor e cronista, Manuel António Pina.
