Depois da queda do Muro de Berlim, muita e boa gente teorizou sobre “o Fim da História”. Todos esses teóricos do irrealismo tonto acreditavam que a civilização humana havia chegado à antecâmara do Paraíso. Sob a sacrossanta capa da economia liberal de mercado, o crescimento económico seria eterno e sustentado, a riqueza equitativamente repartida, o desemprego nulo, a guerra entre os homens erradicada. O Ambiente seria imaculadamente poupado, o fim do estado de doença, bem como a juventude e a Eternidade, estariam garantidos por uma evolução científica e tecnológica imparável. Quanto ao estado das democracias e ao seu aprofundamento nada havia a recear. Os cadáveres autoritários estavam todos enterrados e a participação popular iria ser cada vez mais militante e entusiasta. Para garantir tudo isto aí estavam, agora com autoridade e programas globalmente coerentes, as diversas instâncias internacionais, com a ONU à cabeça. Dezoito anos depois, tudo voltou ao real. Ainda bem. Só partindo do real se constrói algo com sentido, que nunca será o Paraíso porque esse nunca existirá na Terra.
A economia cresceu em muitos cantos do Mundo, normalmente à custa do pior dos capitalismos, predadores dos Direitos Humanos – nomeadamente, nas agora aduladas “democracias” orientais. A América do Norte e a Ásia sobreviveram à “sua” globalização, mas a Europa estagnou nos serviços mínimos, a América do Sul é um poço de contradições e a África uma vergonha para quem se diz civilizado e partiu deixando aquela herança apocalíptica aos seus pobres habitantes. O Planeta encaminha-se para atingir um limite crítico, evidente mesmo sem a “Verdade Inconveniente” de Al Gore. As desigualdades acentuam-se nos países pobres, onde oligarquias multimilionárias fazem o papel dos antigos colonos mais empedernidos. São chocantes em muitos países ricos, onde uma classe média cada vez mais diminuta vê nos plasmas as novelas inundadas de miséria encoberta dos seus subúrbios. As descobertas da cura de novas e raras doenças foram acompanhadas pelo recrudescimento de novas e “democráticas” maleitas. A engenharia genética, a robótica e a nanociência fizeram desenterrar os piores fantasmas saídos dos confins do “Blade Runner”.
Quanto à paz, têmo-la tido no seu melhor. Do Médio Oriente e Iraque às praias do Egipto, da Tailândia e da Turquia. Dos Balcãs ao metro de Londres. Do World Trade Center ao Afeganistão. Quanto à qualidade da nossa democracia, basta olhar para o nosso quotidiano. Para a ineficiência das instituições, para os professores e médicos funcionalizados e para a cartilha que quer domesticar a Comunicação Social. Tudo isto não pressupõe pessimismo. Sou um optimista, e até acho benéfica a exteriorização destas contradições. Só é necessário recentrar as questões no Homem. Verificar que a “terceira via” – à Blair ou à Sócrates – só adocicou o capitalismo retrógrado.
A solução virá de um PPD/PSD “à Sá Carneiro” que, pegando nos seus valores tradicionais, reconstrua a “esquerda” do Séc. XXI. Sarkozy deu a receita. Para a semana falaremos da sua aplicação em Portugal.
Luís Filipe Menezes, in Correio da Manhã
