O que se joga no PSD já não é o mesmo de há dois anos. Então, no rescaldo da curta mas triste liderança de Santana Lopes, Marques Mendes conseguiu o papel de putativo candidato institucional a primeiro-ministro de um partido que queria exorcizar o passado recente e Luís Filipe Menezes era apontado como o herdeiro de um perigoso populismo basista.
Depois das últimas eleições em Lisboa, o PSD já não tem tanta certeza de poder chegar ao poder com Mendes nas legislativas de 2009 e entretanto Menezes, com obra feita como autarca, demonstrou inteligência política para sair desse beco em que o pretenderam fechar.
Ainda neste capítulo, a recente visita de Mendes a Alberto João Jardim, no comício anual de Chão da Lagoa, terá acabado definitivamente com a tese de que a referência está toda de um lado e os populistas estão igualmente todos acantonados no outro.
O encontro da Madeira pode, aliás, ser encarado como a primeira prova das fraquezas de Mendes.
Se as “directas” do PSD não estivessem a caminho, será que ele teria recebido, e sobretudo aceite, ao fim de dois anos de liderança do partido, este convite para se associar ao original acto político com que Jardim assinala o final das suas férias?
É ainda legítima a dúvida: Marques Mendes, o líder corajoso que afrontou Valentim Loureiro e Isaltino Morais, e era persona non grata para Jardim, desertou de vez ou cedeu à evidência de que quem precisa de votos não pode ser intransigente nos princípios?
Ainda por cima, e ao mesmo tempo, Menezes, que no auge da guerra com Rui Rio “ofereceu” um centro de treinos ao FC Porto, soube quebrar essas ligações perigosas. E ele próprio hoje não desdenha apoios entre os meios que antigamente catalogava de “sulistas, elitistas e liberais”.
A comitiva de apoios a um e outro candidato tornou-se homogénea a tal ponto que o desfecho se tornou incerto.
Estas “directas” transformaram-se assim numas eleições de resultado imprevisível que, como sempre, se decidirão num quadro de selvática luta pelo poder, com promessas de reconduções, outras tantas de novos cargos, e alguma desconfiança em redor da questão das quotas em dia, que afecta a maioria dos 140 mil inscritos no partido.
Mendes tem do seu lado a administração do Poder na actualidade dentro do partido, mas transporta já algum desgaste por estes dois anos de oposição falhada a José Sócrates, que se seguiram à conquista do poder numas “directas” nas quais não teve opositor. Menezes, que, não se esqueça, já teve 45% de votos em congresso, é um opositor muito mais difícil do que possa parecer, sobretudo se os militantes fizerem a si próprios a pergunta que verdadeiramente interessa: qual destes dois homens pode ter melhores condições para se bater com José Sócrates, e ganhar, em 2009?
João Marcelino
Director
4 de Agosto de 2007
