Apoiante de Luís Filipe Meneses, o Dr. Armando Moreira disse ao Notícias de Vila Real quais as razões por que entende ser aquele militante social-democrata o melhor candidato à liderança do PSD. Lança farpas aos barões do partido e pede que estes deixem respirar o PSD. Entretanto, o candidato afirma ter o apoio da maior parte dos autarcas de Vila Real.
NOTÍCIAS DE VILA REAL (NVR): Porque razão aceitou representar a candidatura de Filipe Meneses no distrito de Vila Real?
ARMANDO MOREIRA (AM): É uma boa pergunta e também tem uma resposta óbvia. O Dr. Filipe Meneses convidou-me e eu, como estou de acordo com as ideias dele, entendi aceitar. Mas há três razões substantivas que me levam, pela primeira vez desde 1995, quando cessei funções políticas, a aceitar intervir nestas eleições partidárias. Em primeiro lugar por perceber que existe uma certa revolta nas bases…
NVR: Revolta ou desencanto?
A M: Neste caso uma revolta das bases por causa da questão da filiação partidária e da dificuldade em colocar as quotas em dia. Parece-me que é uma questão perfeitamente ridícula, mas que está a dividir as duas candidaturas. Há quem esteja a dificultar que os militantes votem e há as bases em geral que gostariam de estar em condições para exercer o seu direito de voto. Isto parece caricato, porque nos clubes de futebol, associações, bombeiros, facilita-se a filiação e faz-se um grande esforço para que os sócios procedam ao pagamento de quotas. E aqui os militantes querem colocar-se na posição de poderem votar, pagando as quotas e têm uma enorme dificuldade em o fazer.
Isto repugna-me e faz-me dizer que este é cada vez menos o partido de Francisco Sá carneiro. Um partido verdadeiramente popular, em que toda a gente era convidada a aderir sem a preocupação excessiva das quotas. Em segundo lugar, é o desencanto com o Dr. Marques Mendes, por quem tenho simpatia, mas que dá a impressão que na liderança tem tido algumas atitudes que não indiciam que possa vir a ser Primeiro-Ministro. Já estamos a trabalhar para 2009.
E isto resulta do que se passou em Lisboa. Os resultados eram previsíveis, mas a forma como conduziu o processo não foi a melhor. Não se percebe este justicialismo primário que o Dr. Marques Mendes evidenciou e que já tinha empregue em Gondomar e em Oeiras, que agora aplicou em Lisboa e que conduziu a este resultado. Perdeu-se a Câmara.
O eleitorado não reconheceu que tenha sido uma boa atitude. E causa-me alguma estupefacção haver pessoas que não sabem que não se podem exercer estes cargos sem a solidariedade do partido.
MARQUES MENDES NÃO DESCOLOU
NVR: Mas foi só responsabilidade dele ou também de outras pessoas que o aconselham como a Paula Teixeira Pinto e outros?
AM: Claro que não é o único responsável, embora seja o líder do partido. A líder distrital também tem responsabilidades.
NVR: E a terceira razão?
AM: O Dr. Marques Mendes não tem sido reconhecido pelo eleitorado. E por mais esforço que ele tenha feito como líder da oposição, as sondagens de opinião não lhe são nada favoráveis. Não conseguiu arrancar.
NVR: Não só não descola como continua a descer.
AM: Exacto. Estas são as razões pelas quais há que fazer opções. E para quem tem de fazer oposição ao partido socialista percebe que não é desta forma ténue, que vamos virar o espectro partidário em 2009. Portanto, é este o momento. E pela responsabilidade que já tive eu não podia negar este apoio.
NVR: Os militantes já terão esquecido o que se passou no Coliseu, onde estive tal como o senhor, quando Meneses apelidou os apoiantes de Durão Barroso de “elitistas e sulistas?” Em que medida essas palavras poderão condicionar o resultado desta candidatura?
AM: Isso em Lisboa ainda é recordado. Mas também diria que isso tem mais a ver com os barões do partido e não com as bases. Aproveitaria para meter um parêntesis para dizer que eu próprio não teria aceite este convite, se os chamados barões ou senadores, nos quais eu também me incluo, modéstia à parte, estivessem um pouco à margem desta disputa e deixassem as bases decidir.
O PAPEL DOS BARÕES
NVR: Os barões estão todos do lado de Marques Mendes?
AM: Estão a ser “arregimentados” por ambos os lados e isso a mim não me agrada. E a percepção que eu tenho é de que os nossos militantes querem uma mudança. Querem um líder que os entusiasme e que os impele. Voltando atrás o episódio que referiu é uma marca do carácter do Dr. Filipe Meneses. É uma pessoa emotiva e que deu tudo nessa altura pelo Dr. Fernando Nogueira. Julgo que isso hoje já não tem nenhum significado. Inclusivamente, o próprio eleitorado de Lisboa, ao não sancionar o que o Dr. Marques Mendes lhe propôs, indica que isso não será muito relevante.
NVR: Quererão os barões do PSD condicionar a votação dos militantes, para manter a situação?
AM: alguns têm feito declarações no sentido de que neste momento careceríamos de estabilidade. Queremos estabilidade, sim. Mas foi o Dr. Marques Mendes que criou instabilidade ao antecipar as eleições internas. Portanto, é o momento próprio de o partido conhecer e apreciar as propostas que lhe são postas. E aí não há dúvida nenhuma que o Dr. Filipe Meneses, em termos de discurso político, é o discurso de que o país carece. Há que combater o discurso com que o Eng. Sócrates nos tem vindo a anestesiar.
O NORTE ESTÁ INQUIETO
NVR: Há uma luta entre o norte e o sul no PSD?
AM: Não. Eu diria que as pessoas do norte estão mais inquietas. O país ainda é Lisboa e o resto paisagem. Já Camilo Castelo Branco dizia que os políticos quando vão para Lisboa esquecem o país. É essa mentalidade que vigora. E os que querem estabilidade são os que estão instalados no poder. E não quero retirar mérito aos barões. Mas até pela sua idade já não os vejo com determinação para tocar o país para a frente.
NVR. Mas, Dr. Armando Moreira, o Sr. Com a sua idade e com os cargos que já desempenhou, não se considera um barão, nesta altura? O que é que os outros barões poderão dizer desta sua atitude?
AM: Essa pergunta é pertinente…
NVR: Ou será porque o Sr. não é uma pessoa acomodada?
AM: Eu considero-me um senador e não um barão. Sou uma figura representativa, que já desempenhou muitos cargos…
NVR: Que já não quer nada do partido..?
AM: Não quero ser deputado, nem coisíssima nenhuma. Mas tenho uma cabeça que pensa e que acha que assim não vamos a lado nenhum. E analisando o discurso do Dr. Filipe Meneses percebe-se que é mais arrojado e fracturante na dicotomia que o PSD representa na sociedade portuguesa.
NVR: Em relação aqui a Vila Real, qual acha que deve ser a atitude dos dirigentes do partido?
AM: Eu falei com o presidente da distrital, Eng. Elói Ribeiro, e disse-lhe que a posição formal do partido deve ser deixada aos militantes. Deixem o partido respirar. Cada um pode manifestar as suas posições. Não sou de parecer que os órgãos do partido tomem posição. Eu não aconselharia que a comissão política de Vila Real, ou outra, tome opções oficialmente, a favor de uma ou de outra candidatura. O que deve haver é opções individuais claras.
NVR: Da volta que já deu pelo distrito, qual é a percepção com que ficou?
AM: As bases estão com a mudança. Entendem que Marques Mendes não é um líder ganhador. E percebe-se que ele não caiu no goto da comunicação social e por isso é difícil que possa reconduzir o PSD ao poder. O país necessita que o PSD tenha essa ambição, para contrariar estas políticas erróneas do partido socialista.
NVR: Mesmo que ganhe Filipe Meneses, não será um líder transitório?
AM: Ele tem ideias muito sólidas. É excessivo compará-lo ao Dr. Francisco Sá Carneiro. Mas na sua percepção da necessidade de ruptura e de ideias de ruptura na nossa sociedade, ele tem algo que o aproxima do Dr. Sá Carneiro, que também era um homem do norte.
15 de Agosto de 2007
