É normal para um qualquer partido político, em democracia, exercer o Poder ou estar na Oposição. Todavia, o exercício da Oposição, num regime democrático, tem a enorme responsabilidade de saber enquadrar dentro deste mesmo regime o descontentamento gerado pelos desvios que provocam injustiças, pelos tiques de autoritarismo e pelos erros de governação. Tudo isto, é evidente, através de projectos alternativos credíveis, consistentes e claros para a generalidade dos eleitores. Estes, os eleitores a nível nacional, só escolhem uma alternativa quando esta é clara, entendível e congregadora dos seus descontentamentos.
Não sendo a Ciência Política um ramo das ciências exactas, tenho, para mim, a ideia que o PPD/PSD tem andado muito afastado tanto da sua matriz ideológica social democrata como da sua enorme e alargada base social que, tradicionalmente, o suporta.
Tenho dito e redito, fora e dentro do partido, que não me revejo no meu PSD como um partido acantonado à Direita, por duas razões:
- Em primeiro lugar por razões de ordem ideológica que têm a ver com a génese da fundação do PPD/PSD e do seu crescimento. Este crescimento e consolidação fez-se com uma base social de apoio muito diversificada que defende, e bem, alguns valores tidos como tradicionais e de bom senso para a sociedade portuguesa e que o partido soube enquadrar e dar voz, mas nunca abdicando de um equilíbrio entre uma economia moderna e competitiva e uma profunda convicção da necessidade da existência de um Estado Social que proteja os mais fracos, os mais necessitados e os excluídos. Tem que voltar a ser um partido inter-classista e reger-se, novamente, pelos princípios do Humanismo e do Personalismo que sempre perseguiu;
- Em segundo lugar por razões de ordem estratégica: o PS é de “esquerda” na Oposição, ultra-liberal, direitista e prenhe de tiques de insuportável autoritarismo quando é Governo. O PS pode ser aquilo que quiser de acordo com os ventos que correm a cada momento. Pode caçar direitos sociais, transformar as pessoas em números e ter uma prática política, enquanto Governo, muito à direita do PSD. O que o PSD não pode é pensar que deverá estar sempre à direita do PS. O PSD, erradamente, tem esquecido a sua génese, os seus princípios e os seus valores e, obviamente, o seu eleitorado central.
O PSD poderá estar à direita do PS no espectro partidário nacional. Mas há que saber até onde e em que matérias. Esquecer o inter-classismo da sua base social de apoio que vai de em centro-esquerda moderado e reformista a um centro-direita igualmente moderado, é um erro fatal, redutor e inibidor de congregar e mobilizar, novamente, largas faixas do eleitorado que não se revêem nos “socialismos” que têm dado no que todos temos assistido e sentido na pele. Ignorar isto, seja por desvio ideológico, seja por falta de visão estratégica, é dar de mão beijada maiorias ao PS.
Foi com Sá Carneiro e com Cavaco Silva, assumidos sociais-democratas, que sempre rejeitaram para o PSD um posicionamento de Direita, que o partido, enquanto Oposição e enquanto Governo, mereceu a confiança da maioria dos portugueses através de uma prática política de matriz verdadeiramente social-democrata.
O PSD, se quiser ser uma alternativa digna e credível, tem que reafirmar com muita clareza o seu posicionamento e a sua matriz no campo das políticas e da ideologia.
Marques Mendes é um homem sério mas tem sido uma confusão, apesar de ter prometido “recentrar” o partido. Nada fez nesse sentido, antes pelo contrário. Tem cometido erros por acção e por omissão e é um facto que a sua mensagem, sem carisma e sem clareza, não passa.
Marques Mendes é um bom seguro de vida para José Sócrates.
Filipe Menezes tem vindo a dar consistência ao seu discurso e a mostrar que tem uma ideia adulta e credível para o País e para o partido. Se ganhar as directas, o que vai ser difícil, será um quebra-cabeças para José Sócrates e, neste caso, os socialistas que se cuidem.
Por mim, não quero mais do mesmo. Voto, claramente, na revitalização.
P.S. – Já depois de estar escrito este artigo de opinião foi noticiada a apresentação de uma Moção pela candidatura de Marques Mendes que, dizia-se, será galvanizadora para 2009 e com uma orientação centrada nos valores sociais-democratas. Porquê só agora ? Então porque andou estes anos o PS e o seu Governo à rédea solta e sem combate político da Oposição ??? Agora… são sopas depois do jantar.
Filipe Abreu *
*Militante de base do PSD
fili.abreu@gmail.com
