Sei que nunca conseguirão demonstrar que eu não sei vencer eleições e governar com sucesso. Compreende-se.
Três dias de férias em Budapeste foram o suficiente para ter a sensação que o guia himalaico perdido tem quando desce a montanha para reencontrar o trilho perdido na escalada.
Como acontece com os “sherpas” nepaleses, nada melhor do que nos afastarmos da nossa realidade para vermos com mais nitidez a fotografia do nosso quotidiano.
Portugal continua, do ponto de vista da sua cultura comportamental, igual a si próprio. Para o mal e para o bem.
Para o mal, porque continua a amaldiçoar a atitude de coragem, de sentido de risco, de frontalidade e de leitura premonitória do futuro, que caracteriza os povos que ousam dar saltos nos degraus do progresso.
Para o mal, porque continua a entronizar o silêncio, a omissão, o calculismo de nada fazer, como forma de ascensão social, profissional e até política.
Para o mal, porque a inveja cega, o ciúme absurdo e a maledicência mesquinha sobrepõem-se repetidamente a outros valores, nomeadamente quando as coisas não correm bem do ponto de vista de projecto colectivo.
Quando esta mistura lidera a nossa atitude grupal acontece sempre o pior. Promovemos a mediocridade cinzenta, corporizamos os mais hipócritas, caricatos e seguidistas arrebanhamentos colectivos. Sucumbimos na resignação perante a mediocridade. Mas a nossa face positiva e esperançosa ainda anda por aí. Ela traduz-se numa enorme capacidade de sermos solidários e generosos. De nos mobilizarmos, às vezes até pateticamente, para causas que transcendem largamente a nossa pequenez aparente.
Evidencia-se, igualmente, na nossa ancestral humanidade universalista, que nos permite uma afirmação constante longe de portas, em contraste com a habitual capitulação caseira.
Em quase 900 anos de aventura colectiva, esta mistura permitiu-nos sobreviver com uma identidade. Deu-nos o espantoso ciclo das viagens da primeira globalização, Espalhou-nos por todos os continentes. Concedeu-nos uma dimensão planetária.
Em contrapartida, condenou-nos a grandes períodos de ocaso, a competirmos muitas vezes pela mais humilhante das sobrevivências, a exercícios repetidos de autoflagelação colectiva.
Portugal não tem conseguido impor a si próprio a perenidade do esforço geral bem dirigido. Essa perenidade permite que Budapeste já nada tenha a ver com a imagem desorganizada e decadente das nossas principais cidades. Acredito num futuro em que tal possa acontecer. Para tal é preciso quebrar com o ciclo vicioso em que estamos enredados. Foi nesse contexto que decidi cometer “o crime” de me candidatar a líder da oposição democrática. De imediato, o “establishment” do “deixa a andar” nacional entrou em pânico. Com razão. Comigo terão clareza, decisão e o fim dos compadrios.
Estou preparado para o combate. Um combate, que querem lamentavelmente “sujo” onde, desde o primeiro minuto, procuram atacar a minha personalidade, o meu carácter, a minha vida pessoal e familiar, a minha honorabilidade.
Sei que nunca conseguirão demonstrar que eu não sei vencer eleições e governar com sucesso. Compreende-se.
Luís Filipe Menezes
in Correio da Manhã
23 de Agosto de 2007
