Entrevista ao EXPRESSO

A entrevista estava marcada para as nove e meia. Acabou adiada para as cinco da tarde porque Menezes tinha que ir ao Porto festejar os anos de um filho. Mas como o avião se atrasou duas horas acabou por só se sentar com o Expresso já passava das sete. O líder do PSD continua dividido entre o norte e o sul mas acredita que só lhe faltam dois anos para arranjar casa em Lisboa, mais propriamente no Palácio de S. Bento. Para lá chegar tem uma fórmula radical: desmantelar em seis meses o excessivo peso do Estado e mudar a legislação laboral para aliviar a economia. Pelo sim, pelo não, contratou a agência de comunicação de António Cunha Vaz, por 30 mil euros por mês.

A sua vida transformou-se num drama com esta divisão entre a câmara de Gaia, o Porto e Lisboa?
Não. Já houve uma época da minha vida em que essa divisão foi muito mais desagradável - quando eu era secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e em simultâneo presidente do PSD/Porto, às vezes tinha que estar de manhã em Lisboa e à tarde no Porto - com razões muito menos estimulantes do que agora. É evidente que tenho uma vida desgastante e exigente, mas não me queixo. Há demasiada gente a queixar-se da vida em Portugal. Eu acho que tenho razões para andar feliz.

O que é feito do Luís Filipe Menezes que usava excessos de linguagem e chorava em público?
Toda a vida houve políticos fumadores como o sr. Churchil ou mulherengos como o sr. Keneddy. A vida política é feita de gente normal, e alguma ideia de anormalidade feita de alguma introspecção , rigor e até santificação do exercício do poder vive normalmente de artificialidades e máscaras que são construídas através de técnicas de marqueting. Todos os políticos são antes de mais homens e mulheres normais, com os problemas, ansiedades e hesitações que um homem e uma mulher normal têm.

Mas hoje está mais contido e controlado.
Eu sou exactamente a mesma pessoa que era. Contudo, admito que o facto de à época não ter como meta a assunção de determinado tipo de responsabilidades me fazia ser mais distendido e não ter a preocupação de conter algumas facetas da minha personalidade que podem ser analisadas como algo que me diminui para o exercício de certas actividades. Mas isso é o normal - o professor Cavaco Silva de hoje não é o mesmo Cavaco Silva de há uns anos atrás.

O acordo que fechou esta semana com a agência de comunicação de António Cunha Vaz é a prova de que a imagem é para si uma questão central.
Hoje em dia todos têm que ter a preocupação, não de construir imagens artificiais, mas de melhorar as circunstâncias em que a sua imagem chega às pessoas. Isso pressupõe algum profissionalismo. Contudo já tenho a experiência suficiente para não acreditar que estas coisas fazem milagres. Há uns anos havia um jogador do Benfica chamado Yuran, que quando ouvia criticar o Maradona por tomar cocaína, dizia: eu podia tomar dez dozes superiores que não era capaz de fazer o que ele faz. Se um homem político não tiver ideias, capacidade de liderança e génio, não há 10 senhores Ségelas que consigam fazer dele algo de vendável e mobilizador. Quanto aos recursos é evidente que o PSD tem dificuldades financeiras mas teremos que encontrar maneira de dar resposta às necessidades elemantares do partido, sob pena de não conseguirmos ser competitivos. O PS hoje está no Estado e utiliza o Estado a seu belo prazer, tem os gabinetes de estudos dos Ministérios, tem as cerimónias públicas que colocam o PM num nível idílico, e o PSD tem que ter o mínimo de condições.

Quanto vai custar este contrato ao PSD?
Muito pouco. 25 ou 30 mil euros por mês.

Passou a aparecer muito nas revistas cor de rosa. Isso agrada-lhe ou incomoda-o?
Tenho nessa matéria uma filosofia. Acho que há um limite, na minha casa nunca entrará uma revista desse género, mas na rua não posso impedir que me fotografem. Da parte da comunicação social acho que o limite deve ser não ultrapassar na sua ânsia de curiosidade certo tipo de fronteiras para quem não atira com a sua vida pública à cara dos outros. Agora, não me incomoda nem me agrada. É uma inevitabilidade e procurarei geri-la com equilíbrio.

O que lhe sugere Sarkosy com Carla Bruni na Disneylândia. Exibicionismo ou liberdade?
Admito que o sr. Sarkosy queira refazer a sua vida pessoal e familiar e tenha escolhido ser ele a determinar o tempo e as circunstâncias para aparecer, em vez de deixar que as noticias surjam de supetão, não geridas do ponto de vista da comunicação. Julgo que será isso, vamos ver o que é que o futuro nos reserva.

Como é que gere a semana? Quantos dias vai à câmara de Gaia?
Vou à câmara normalmente dois dias por semana.

Os munícipes olham-no doutra maneira?
Não. Os munícipes gostam do presidente da câmara, é assim uma relação a meio caminho entre o padre e o médico. Isso sim, emociona-me bastante. Entristece-me um dia ter que deixar essa relação.

E como candidato a primeiro-ministro também vai querer ser um misto de padre e médico?
Não, a ligação que um autarca tem com os munícipes não é possível de transpor para o nível nacional.

Tem sido difícil trocar a imagem de autarca popular pela de homem de Estado?
Não, o que me custa é o diagnóstico que rapidamente tive que fazer do estado do partido e do país. Apesar de só aqui estar há oito semanas, gostava que algumas insuficiências se ultrapassassem com maior rapidez, mas julgo que o essencial está conseguido. Primeiro: conseguimos recentrar no PSD a sua importância enquanto grande partido alternativo; depois começamos a construir uma organização estrutural do PSD que lhe permita posicionar-se como oposição credivel com produção programática perceptível; e fomos determinantes no lançamento do debate sobre a ratificação do tratado da União Europeia, os dossiers da politica de Justiça e Segurança Interna, na denúncia da gravidade da insegurança publica nos grandes centros urbanos, quatro ou cinco dossiers em que lideramos o debate público. Agora, ninguém esperava que aparecêssemos com o nosso programa para a educação ou para a saúde. Se não aparecemos em 12 anos porque é que haviamos de aparecer em dois meses?

Mas nestes dois meses o PSD perdeu marcas distintivas. A politica fiscal, o referendo à Europa …
Eu discordo. Nos últimos anos tivemos uma convergência entre PSD e PS naquilo que é mais negativo, nas ideias para a governabilidade. O que é que distingue o PSD do PS na educação, na saúde, na descentralização administrativa? Não é por haver pactos que passa a haver convergência. Às vezes a omissão é a pior das convergências.

Mas quem propôs pactos ao engenheiro Sócrates foi o senhor.
Não propus e uma mentira dita muitas vezes não se transforma numa verdade. Eu não tenho simpatia por pactos nas matérias de governabilidade que podem ser decididas por maioria simples no Parlamento. Dai que eu fosse contra o pacto da Justiça. Agora, acordos parlamentares alargados é outra coisa. Foi o que propus para as grandes obras públicas, como se fez em Espanha. Para retirar de uma vez por todas do debate político a construção de equipamentos que servem o pais independentemente de quem está a exercer o poder. E acabar com o ciclo dos investimentos em que o pais não se revê.

Como os estádios de futebol.
Pelo menos parte dos estádios. Vamos suscitar com a maior das veemências a questão do ruinoso negócio das Águas de Portugal no Brasil, que foi liderado por um responsával técnico à frente das Águas de Portugal, Mário Lino, e teve um ministro que impulsionou o acordo, chamado José Sócrates. O mesmo ministro que fez 10 estádios de futebol, quando com 4 ou 6 se teria feito o campeonato, e que fez um programa Polis que apontava para um investimento que o Estado no fim não teve capacidade para cumprir. São dossiers que tocam no cerne das exigências de rigor que por vezes se querem associar ao eng. Sócrates.

A sua proposta de pacto para as obras públicas é muito cara aos empreiteiros que assim contariam ter assegurada a sua parte do bolo.
Pelo contrário, os construtores deixariam de ficar nas mãos do poder em cada momento. Além disso, porque é que um acordo de regime que foi tão elogiado em Espanha (que tem uma democracia muito mais escorreita do que a nossa) deixou de ser bom? Só porque foi proposto por mim?

Falou com o PGR e o director da PJ sobre os casos de insegurança no Porto?
Essas conversas que vou tendo não as devo tornar públicas, o que acho importante é a discussão e a denúncia em torno dessas questões. É com grande preocupação que eu vejo o discurso oficial tentar condicionar e inibir a sociedade em geral e a discussão de algumas questões em Portugal. O PS tem uma lógica opressiva do exercício do poder, como se tivesse subjacente ao seu exercício um discurso ético em que a razão e a moral estão sempre do seu lado. Se criticamos a politica de segurança, ai Jesus que estamos a cavalgar o sangue das vítimas, se falamos do desemprego, ai Jesus que estamos a cavalgar a desgraça. Parece que estamos inibidos de contraditar e criticar a acção do Governo. Em França, o sr. Sarkozy um dia chamou escumalha aos jovens dos bairros da periferia. Imagine-se o que diriam se o líder do PSD usasse esta linguagem. Estava perdido.

É por isso que ainda não o vimos à porta de uma fábrica como prometeu fazer sempre uma fechasse?
Não me deixei inibir mas esse tipo de populismo é mais a especialidade do eng. Sócrates do que a minha.

Foi o sr. que disse que quando uma fábrica fechasse estaria à porta.
Não quer dizer que amanhã não apareça à porta de uma fábrica ou de uma manif mas o que eu quis dizer, em linguagem figurada, foi que havendo um problema ou algo de errado, o PSD está a denunciar. Eu ando há dois meses a denunciar a situação de insegurança, disse há 15 dias que a situação no Porto estava descontrolada, o ministro Santos Silva veio dizer que eu estava a exagerar, afinal no dia seguir houve mais um suicídio e toda a gente já percebeu que há um descontrole. A montante tem que haver politicas erradas, de emigração, de emprego, politicas sociais. Mas há aqui uma questão de fundo que nas próximas semanas vai ter que se esclarecer. Existe uma concepção errada da politica de combate ao crime e nós vamos fazer fracturas. O PSD não deixou de ter um pensamento programático diferente, deixou de pensar, mas quando voltar a pensar vai ver que tem posições diferentes. O modelo do dr. António Costa desmantelou toda a lógica correcta da investigação criminal à volta de uma policia que era de referencia, a PJ. Repartiu a investigação criminal às fatias pelos diversos corpos judiciais e o que aconteceu decorre disso. O nosso modelo irá no sentido de voltar a concentrar a investigação criminal na PJ. Remetendo a PSP e GNR para funções de segurança dos cidadãos no quotidiano. É errado estarmos a discutir a figura do coordenador do sistema quando não devia haver nada para coordenar. Tudo devia estar concentrado na PJ.

Concorda com Pacheco pereira quando associa os episódios no Porto com as claques de futebol, nomeadamente com os SuperDragões?
As claques tornaram-se em todo o mundo factores de instabilidade mas há aqui vasos comunicantes. As claques emanam da sociedade e reproduzem situações sociais complexas. Em Portugal elas também incorporam contextos sociais mais débeis. Quanto a terem maiores ligações a esta ou aquela claque, eu não antecipo com leviandade esse tipo de raciocínios ou acusações.

Sinalizou um PSD mais liberal. Isso vai-se traduzir em quê?
O caminho do PSD deve ser o que tem a ver com a sua história e com os momentos em que se afirmou com eficiência na governação. Ser liberal na economia e ser bem mais social no desenvolvimento do Estado Social.

Mas isso é o que diz o eng. Sócrates.
Não acho. Liberal, o eng. Sócrates? O que é que ele privatizou na sociedade portuguesa? Ele está a nacionalizar aceleradamente sectores importantes da economia. O que se está a passar no Ambiente é escandaloso do ponto de vista do aumento do peso do Estado, com as Águas de Portugal e a EGF a nacionalizarem a esmo sistemas multi- municipais pelo país fora, e além do mais o PM nem teve coragem de romper com o status quo nas politicas de trabalho e no código laboral que torne Portugal competitivo à escala global.

Quais devem ser as Funções do Estado?
O Estado deve sair do ambiente, das comunicações, dos transportes, dos portos, e na prestação do Estado Social deve contractualizar com os privados e acabar com o monopólio na saúde, educação e segurança social.

E deve sair das estradas?
Tenho muitas dúvidas, porque o plano rodoviário nacional ainda não está estabilizado. Ainda estamos distantes do patamar desejado do ponto de vista de equilíbrio do que deve ser o serviço publico. Por exemplo, a privatização apressada da EDP, antes de se ter definido com clareza até onde iam as obrigações do serviço publico, explica o cenário de fios pelo ar que se veêm pelo país fora, com equipamentos a lembrar o terceiro mundo. Porque a empresa e o grupo já não está a funcionar numa lógica de resolução de problemas básicos em termos ambientais, estéticos e paisagísticos, que teria de resolver se estivesse ainda na esfera publica. Portanto, há momentos para privatizar.

Tenciona avançar com a revisão do programa do PSD?
Tive uma reunião com o dr. Balsemão que me disse, duma forma muito correcta e leal, que praticamente não havia trabalho realizado, estava-se na estaca zero. Fiquei de fazer uma avaliação com o dr. Balsemão.

Mas esta não é para si uma prioridade?
Não é uma prioridade.

Quando anuncia os novos porta-vozes do PSD?
Para ter porta-vozes é preciso que o sejam de alguma coisa. Neste momento estou mais preocupado em retomar a produção programática. Estamos a criar os grupos de trabalho - 16 - que vão começar a produzir. Em Janeiro estarão em velocidade de cruzeiro e depois decidirei caso a caso se existirão porta-vozes em algumas áreas. Em princípio teremos Jorge Costa nas Obras Publicas e na Justiça gostaria que fosse o dr. Paulo Rangel.

E quando apresenta um programa alternativo ao do Governo?
De acordo com as possibilidades e com a razoabilidade das coisas. Se eu neste momento tivesse um programa de governo feito não o apresentava. Seria uma burrice. Eu tenho que combater o PS e mostrar a irrazoabilidade da sua gestão. As minhas propostas têm que ser apresentadas nos timings certos - se o fizesse agora, o dr. Silva Pereira iria procurar desacreditá-las antes que elas fizessem o seu caminho. As propostas de governação são algo para os últimos seis meses. Isso não significa que o PSD não tenha, já no próximo ano, algumas iniciativas concretas.

Se não o fizer, limita-se a dizer mal.
Espero que não haja uma exigência em relação a mim que não houve no passado. Nos últimos 12 anos, o PSD esteve nove anos e meio fora do poder e mesmo com Durão Barroso chegou ao poder por 1,5%. A afirmação de um partido de oposição em Portugal é muito difícil. O partido que governa controla os fundos, a politica de comunicação - hoje temos o cutelo da TDT para manter os grupos submissos -, o peso do Estado dificulta a lógica de alternância democrática. Temos que aniquilar este peso excessivo do Estado na sociedade portuguesa.

Há condições para fazer rupturas em Portugal?
Penso que sim, temos dois exemplos: o que se passou em Espanha com Zapatero e, fundamentalmente, o que se passou em França com Sarkozy. Ele ganhou porque foi politicamente foi forte, teve propostas claras, fracturantes, mobilizadoras, pôs claramente os que estavam contra ele dum lado da barricada e os outros do outro.

É isso que se propõe fazer?
É. Eu proponho-me dizer aos portugueses que quero privatizar todos os sectores que breferi, já, não é amanhã de manhã. Proponho-me liberalizar a legislação laboral porque não podemos ter o melhor de dois mundos. E não sou dos que acham que é virando os recursos do Estado Social para economia que vamos adquirir a competividade, . Por ai vamos destruir o que temos sem construir nada em troca. Lá para frente a Europa vai ter que ter um posicionamento diferente em relação à globalização, vamos ter que negociar direitos ambientais, do Homem, sociais, à escala global. Hoje, temos que dizer às pessoas: a 10 anos de distância, o kit social que o Estado pode garantir é isto …. Eu não defendo o Estado Social mínimo mas defendo o Estado Social possível, nada garante que o que temos hoje e é bom se possa manter daqui a 10 anos. A forma de salvar o Estado social é rapidamente trazer os privados para a educação, a saúde, a gestão.

Admira Sarkozy?
Sou um admirador do estilo do Sarkozy. Da ideia de fazer e ter ideias claras. A lógica das oposições trem sido muito a de não correr o risco de ter ideias. O sr. Sarkozy deu um contributo para tornar as políticas mais claras, como antes fizeram a sra Tacther, ou o professor Cavaco Silva.

Aceita correr o risco de em Janeiro ser o único líder partidário contra um referendo à Europa?
Tenho a certeza de que sou eu que estou certo. A reivindicação do referendo parte duma grande hipocrisia.

Se houver referendo fará campanha pelo sim?
O PSD apelará ao sim mas não deixará de alertar para os riscos para o país e para a própria democracia representativa. Se o referendo não fosse vinculativo, alguém teria que responder por isso.

Aceitaria participar numa acção de campanha pró-sim ao lado de Sócrates? Não é necessário haver uma campanha com uma participação simultânea dos dois lideres.

Como pensa gerir as críticas internas que já lhe vão fazendo no PSD?
Eu acho que uma liderança nunca se afirma ou deixa de afirmar por causa dos críticos internos. O meu sucesso vai depender da minha capacidade para levar por diante as ideias que tenho na cabeça para o país.

O momento para aferir da sua liderança são as legislativas?
Acho que sim.

Mas disse recentemente ao DN que se daqui a um ano houver ruído no partido é porque a sua liderança não se conseguiu afirmar. Nesse caso demite-se?
Não, eu adoro ruído, como adoro música. Eu represento uma ameaça para muita gente. Há muita gente que gosta que isto funcione como tem funcionado porque há uma lógica de bloco central de bastidores que está há muitos anos instalada na sociedade portuguesa. Eu prefiro a dinâmica de confronto.

Se não ganhar em 2009, demite-se?
Eu acredito sinceramente que vou ganhar as eleições. Não admito perder. Sei que em democracia pode-se sempre ganhar e perder, mas acredito que face à realidade das condições de vida dos portugueses, as pessoas vão querer mudar.

Tem falado com Paulo Portas?
Desde que sou líder do PSD nunca falei com ele.

O PSD saiu bem da crise de Lisboa?
Saíu menos mal. Passou-se algo semelhante ao início da legislatura, quando o PS condicionou as pessoas dizendo-lhes que a siotuação deficitária do Estado era culpa do PSD. O PSD deixou que a mensagem passasse e o mesmo se passou em LOisboa onde o PS deu a entender que a dívida era excluivamente culpa nossa. A verdade é que quando Santana Lopes saíu a dívida era quase 100 milhões de euros a menos do que quando entrou. Eu sei que é difícil resistir a este tipo de condicionamentos e que o apoio do partido é fundamental. Eventualmente se o actual líder da distrital de Lisboa já o fosse antes, as coisas tinham sido diferentes.

Gostava de ver Valentim e Isaltino de volta ao partido?
Tenho o maior apreço pelos dois e acho que ninguém deve ser condenado antes dos julgamentos acontecerem. Agora, como presidente do partido acho que neste momento não existem condições politicas para eles regressarem.

Consigo vai continuar a complacência com Alberto João Jardim, mesmo quando ele trata o Presidente da República por senhor Silva?
O dr. Jardim tem obra feita e um estilo que todos os portugueses já conhecem.

Vai apresentar o candidato a Lisboa em 2008?
Decidimos que onde não somos poder os candidatos devem aparecer antecipadamente no terreno por forma a terem tempo para se afirmar. Em Lisboa admitimos que isso aconteça mais cedo. Os que se quiserem recandidatar terão o apoio da direcção do partido.

Se Rui Rio não se recandidatar, convida-o para quê?
Rui Rio tem currículo e é do interesse do partido que possa maximizar as suas mais valias. O Parlamento Europeu poderia ser uma hipótese.

Rui Rio pode preferir disputar-lhe a liderança do PSD se vir que o PSD pode ganhar as legislativas.
Está como o BladRunner. Muita virada para o ficcionismo. Gostaria muito de comentar isso mas não vou fazê-lo.

Leu o artigo de Rui Ramos, esta semana no Público, onde cita o livro que o sr. escreveu na campanha para a liderança e onde se lê: “cosmopolitismo para mim é viajar ao luar, entrar no Triangulo Dourado e acampar no norte do Camboja”. Onde anda este aventureiro que Rui Ramos chama de “Indiana Jones de Gaia”?
Eu não li esse artigo mas o dr. Rui Ramos já me brindou com outros no género, que estão na fronteira do insulto. Eu sou católico e cristão, a minha comiseração não tem limites. Mas os meus filhos que leêm isso ficam doentes, dizem o meu pai não é nada disso. Será que esse senhor não tem filhos? Deita-se tranquilo depois de escrever essas coisas?

Porque é que se tem queixado tanto da RTP?
Ontem, telejornal das oito: o primeiro-ministro apareceu a abrir, a inaugurar o Metro (esqueceu-se de convidar o dr. Ferro Rodrigues), aos 4 minutos apareceu a cumprimentar o PR e a fazer mais um discurso, e aos 7 no jantar de Natal do PS. Bom, eu desisti, estava à espera de ver o líder da oposição mas vi o dr. Portas duas vezes. Quanto à análise politica e aos comentários estão completamente desiquilibrados. Normalmente as pessoas de serviço são pessoas que fazem o discurso oficial do PS , e as do PSD são sempre aquelas que vão bater forte e feio no líder do PSD. Se fosse ao contrário como é que estaria o pais e as sondagens? Não sei, porventura estaria diferente.

Que solução preconiza para a Televisão Digital Terrestre?
O Governo está a usar a TDT para controlar os grandes grupos. Chega aos grandes e diz: se se portarem bem, os outros não vão ter canais; depois, chega aos que não têm e diz: se se portarem bem, vão ter. Nós vamos anunciar uma posição sobre isto no final de Janeiro, com clareza e sem meias tintas.

Santana Lopes apagou-se no Parlamento . Era esse o seu objectivo?
Não, o dr. Santana é líder porque mostrou disponibilidade para o ser e não é pelo facto de a dada altura as coisas terem corrido menos bem que ele perdeu as qualidades ou a competência que tinha anteriormente. Poucos deputados estariam, como ele, em condições de discutir de igual para igual com o eng. Sócrates.

Mas Santana Lopes dá argumentos para relembrar o passado?
Às vezes isso é positivo porque essa história está mal contada. Nestes 12 anos e meio o PS governou 10 anos, sempre com condições muito favoráveis. Nós governamos dois anos e tal e algum dia há-de fazer-se justiça. O eng. Sócrates vai ter que discutir com o dr. Santana Lopes de 15 em 15 dias e já está a exagerar no passado, como no meu livro. No próximo debate estou mesmo a pensar pôr a minha secretária a distribuir exemplares do meu livro por todos os ministros.

Vai arranjar casa em Lisboa?
Só daqui a dois anos, ali perto da Assembleia da República.

Se houvesse eleições hoje, diga três razões para os portugueses votarem em si.
Primeiro: ter um PM que acredita que Portugal pode, nesta geração, ter um crescimento que duplique ou triplique o actual; segundo, a aposta radical que eu faço de, em meia dúzia de meses, desmantelar de vez o enorme peso que o Estado tem na sociedade portuguesa e que oprime as pessoas. Finalmente, a ideia de que todas as reformas que têm de ser feitas o podem ser em seis meses. É possivel pôr os portugueses a escolherem a escola dos filhos sem perderem os apoios do Estado em seis meses, a escolher o hospital e a terem o mesmo financiamento, a descentralizar competências nas autarquias locais, a privatizar os sectores da economia que referi, a avançar com a reforma da administração publica. È preciso dizer aos portugueses que a sua vida pode mudar já.

Em seis meses? Mas isso é uma revolução.
Os resultados não aparecerão em seis meses mas as mudanças do ponto de vista legislativo, sim. O que é que impede de mudar o código de trabalho em seis meses? Nada, só a falta de coragem política.

Admite avançar com a regionalização sem referendo?
O debate da regionalização suscitou muitos traumas e deve ser tratado com muito cuidado. Não me chocaria que se retirasse da Constituição a obrigatoriedade do referendo - é injusto que haja esta blindagem constitucional que não existe em relação a outras matérias.

Ainda tem tempo para ver o Sporting?
Eu gosto muito de futebol, embora tenha praticado o princípio nos últimos anos de só ir ver a selecção nacional, que tenho perseguido por todo o mundo, às vezes meio escondido no meio da bancada.

Mas distanciou-se do mundo do futebol?
Distanciei-me pela lógica de gestão do futebol português. Tenho uma enorme dificuldade quando para ao domingo ir ver futebol português tenho que ir ver um jogo da terceira divisão, senão vou ver futebol brasileiro, sérvio ou croata.

Há estrangeiros a mais?
Uma loucura total. Sobretudo quando se faz o discurso da formação.

Imagina-se a incluir craques do futebol na sua campanha em 2009?
Acho que o desfile de pessoas arregimentadas para estarem à volta dos líderes algo de terceiro mundista. A não ser que resultem duma militância voluntária.

Já comprou as suas prendas de Natal?
Quase todas.

O que é que oferereria ao eng. Sócrates?
A última edição do Blade Runner - Perigo Eminente.

Chegou a defender Marcelo para presidente. É uma hipótese que mantém?
Eu sou a pior pessoa para comentar o professor Marcelo.

E com Durão Barroso, tem uma boa relação?
Excelente relação!

Já não o acha sulista, elitista e liberal?
Eu nunca disse isso.


Ângela Silva e Nuno Saraiva

in EXPRESSO, 22 de Dezembro 2007

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Uma Resposta a “Entrevista ao EXPRESSO”

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