Em 28 de Setembro de 2007 fui eleito líder do PSD, com confortável maioria absoluta. Assumi funções num grande e importante partido político, mas que havia deixado de ser uma real alternativa do ponto de vista das condições de acesso ao poder.
Administrativamente desorganizado, tecnicamente impreparado, financeiramente exangue, afastado da sociedade, sem iniciativa política, sem pensamento estratégico inteligível. Este estado pré-comatoso teve a sua génese na segunda metade do “cavaquismo” e aprofundou-se, progressivamente, ao longo da última década.
Com sedes partidárias fechadas em todo o País, com uma máquina central de funcionários diligentes mas desmotivados, sem quadros técnicos que suportem a produção programática, com quadros políticos gerados no século passado - uns com currículo mas envelhecidos, outros, jovens mas sem afirmação profissional, muitos outros saudosos do tempo em que as suas carreiras foram construídas não com trabalho e militância mas sim à sombra da figura tutelar de um líder forte, ou, pior, viciados no conforto de uma atitude passiva que alimenta as mordomias de um pântano central de interesses -, o PSD estava paralisado.
Foi com esta realidade que tive que lidar e que acreditei poder transformar. Foi conceptualizada uma profunda transformação, ancorada, simbolicamente, na transferência da sede nacional do bunker majestático de S. Caetano à Lapa para um moderno edifício da Avenida da Liberdade, no “coração” de Lisboa. Dez andares, com visibilidade orgulhosa para milhares de portugueses, com instalações dignas para os órgãos nacionais do partido, para as organizações autónomas das mulheres, trabalhadores e jovens social-democratas, onde se fixaria, também, o Instituto Sá Carneiro e o Grupo Parlamentar.
Paralelamente estava a ser articulado o recrutamento de um alargado e qualificado staff técnico de apoio ao trabalho político do quotidiano.
Despiciendo? Não. Uma necessidade inadiável que, ligada a transformações semelhantes que se equacionavam para o resto do País, traria o PSD da idade da pedra para a contemporaneidade.
Contudo, este trabalho interno não nos paralisou. Fomos eficazes no aproveitamento dos quadros disponíveis, fizemos uma oposição leal mas dura e formatamos o essencial de um discurso programático mobilizador.
Deixamos formados e a trabalhar uma vintena de grupos de trabalho político sectorial. Assim, naturalmente, fomos efectivos na iniciativa e no contraditório: condicionamos a forma de ratificação do Tratado de Lisboa e a prudência como Portugal tem lidado com a realidade do Kosovo, fomos determinantes na denúncia da deriva da política de Saúde, fomos duros na forma como protestamos contra a tentativa de partidarizar a liderança da CGD e do BCP, bem como no combate contra a insipiência da supervisão bancária por parte do Banco de Portugal. Estivemos na primeira linha de denúncia da crescente insegurança nas grandes cidades, calcorreámos dezenas de bairros sociais chamando a atenção para a pobreza crescente, batemo-nos contra a actual política de abandono do território, dando uma visibilidade única aos problemas do interior, fomos radicais na ruptura de acordos que defraudavam o interesse geral (ex.: Pacto Judiciário e o novo mapa funcional da Justiça).
Na frente da política económica fomos claros e acutilantes. Logo em Outubro, aquando do debate orçamental para 2008, dissemos que não passariam seis meses até que ficasse claro que as perspectivas do Governo eram incumpríveis. Antecipámos a fragilidade do crescimento económico, do aumento do desemprego, da queda do investimento, da quebra do poder de compra e dos salários. Combatemos a opção Ota, defendendo Alcochete, ao mesmo tempo que propúnhamos um entendimento parlamentar para a definição dos investimentos públicos desta geração. E ainda nos sobrou tempo e engenho para propostas alternativas globalmente coerentes.
Assentes na tríade “menos Estado mais economia, descentralização e reforço da coesão social”, foram apresentadas e explicitadas propostas substantivas.
Da necessidade de uma progressiva harmonização fiscal ibérica; de uma promoção do desenvolvimento competitivo do interior; de um apoio social a 700 mil portugueses através de um Polis Social; de uma transferência de novas competências para os municípios; de uma municipalização da regulamentação de actividades económicas; de uma interdição de publicidade na televisão pública; de um apoio ao ensino de cidadãos deficientes; de um relançamento do debate sobre a regionalização; de um aprofundamento do processo de privatizações (no ambiente, na energia, nos transportes), etc.
Hoje há quem afirme que ninguém nos ouvia. No essencial concordo. Quem é que pode prestar atenção a uma ópera quando no ecrã ao lado Doze Indomáveis Patifes protagonizam uma infindável e ruidosa “coboiada”.
Todavia, hoje tudo se torna mais transparente. Manifestamente, depois do “inferno” não raiou o “Sol”. As capacidades e prestações relativas dos actuais candidatos podem ser livremente comparadas com as minhas e as suas ideias e propostas também.
É seguro que o PSD vai eleger um novo líder, até porque as querelas sobre quotas e regulamentos deixaram de existir. Deixaram de estar ligadas a “lavagem de dinheiro” e a “atentados contra a democracia interna”. Tudo isso terminou logo no minuto seguinte a eu ter saído de cena! Onde estão os preocupados dez ex- -secretários-gerais e as acusações contra os meus apoiantes, apelidados de “gang do multibanco”? Imagino que os primeiros estão onde sempre estiveram, no remanso de um afastamento tranquilo, à espera de um possível regresso ao passado. Os segundos, uma pequena franja que se deixou seduzir pelo canto de sereia dos barões, deixou de ter o estatuto injusto de grupo mafioso para passar ao estatuto mais tecnocrático de “brigada especializada em serviços especiais de natureza informático-financeira”!
É igualmente seguro que o PSD terá um líder que, pela primeira vez, em 30 anos, não terá a legitimidade de representar uma maioria qualificada de eleitores. Fragilidade insanável em democracia.
Temo que a divisão entre os que representam a mudança e a resistência aos baronatos signifique a vitória de Pirro de quem fez o mal e a caramunha. Mas também sei que esse hipotético cenário só se traduziria num negro, mas curto e transitório, regresso ao passado. Nessas trevas haverá sempre quem queira resistir. Eu, porque tenho memória, seria dos primeiros a estar disponível para juntar a minha voz à de quem lidere esse combate. Espero que tal não seja necessário.
Luís Filipe Menezes
presidente do PSD
