Lisboa é a principal prejudicada pelo centralismo

“A vida do país está toda centralizada no Terreiro do Paço com grande prejuízo para Lisboa. A sua qualidade de vida e a própria organização da área metropolitana sofrem todos os dias tropeções decorrentes deste hipercentralismo da capital”, diz Luís Filipe Menezes..
A Continua a falar do PSD. Do seu PSD e do PSD “dos que o atacavam”, e que agora lhe sucederam na liderança do partido. Mas Luís Filipe Menezes diz ter um projecto para Gaia, de onde, garante, nunca tirou os olhos.
Mesmo afastado da liderança do PSD, é notório o entusiasmo com que continua a falar do país, e do seu projecto para o PSD. Mas, ao assumir que deverá candidatar–se de novo à Câmara de Gaia, os gaienses não deveriam ter uma opção estável no campo do PSD?
Eu nunca abandonei a presidência da câmara. Mesmo quando estava na liderança do PSD ocupava uma parte substancial do meu tempo com essas tarefas. Hoje, a Câmara de Gaia é uma autarquia muito estável, muito organizada do ponto de vista estrutural, nas suas direcções e empresas municipais. O presidente da câmara, como acontece em muitos países da Europa - na França, como sabe, os presidentes de câmara até podem ser membros do Governo - dá as suas grandes orientações, lança os grandes projectos. Foi isso que eu fiz. Os gaienses sabem que estou em cima desses grandes projectos. Neste momento voltamos a ter uma enorme ambição, e no dia 10 de Novembro vamos apresentar no Porto - por uma questão logística, não por qualquer provocação - Gaia de 2009.
E o que é isso?
É uma Gaia que, com esta crise que está a perturbar a vida da Europa e do mundo, vai ter mil milhões de investimento público e privado a rolar no concelho. Mil milhões de euros.
Tendo em conta precisamente a crise, não teme que alguns desses investimentos na zona ribeirinha ou até nos parques empresariais que estão a instalar no concelho venham a ser adiados pelos respectivos promotores?
Claro que, quando este clima se instalou, fiquei apreensivo. Confesso que nos últimos dias estive a verificar, quase caso a caso, as situações em concreto. Penso que tivemos alguma felicidade porque esses projectos já estão com uma dinâmica tal - alguns até no terreno - que não eram susceptíveis de recuo. Poderá haver um ou outro caso pontual, que ainda não tenha arrancado, em que pode acontecer um compasso de espera. Mas estamos condicionados numa coisa. Com esta inércia enorme que foi criada, poderá ser difícil manter a mesma dinâmica enquanto a situação económica internacional não se clarificar. Mas os hotéis em construção não vão andar para trás, nem as grandes parcerias público-privadas como a do Cais Cultural de Gaia, ou um conjunto de investimentos imobiliários, industriais ou turísticos que já estava em concretização. A ocupação dos parques industriais não pode demorar?
A instalação das empresas está dependente da economia. Vamos ter de jogar com esse imponderável.
O desemprego ainda é um problema grave em Gaia?
O desemprego é tão grave em Gaia como na área metropolitana do Porto. É um problema do país e da Europa. Andamos a discutir a crise financeira, começou-se a discutir finalmente a crise económica, e é preciso saber até que ponto esta não está a empurrar, a avolumar, as dimensões da crise financeira, que nasceu por um fenómeno absurdo de desregulação do mercado.
É possível afastar Gaia da crise com essa estratégia de diferenciação, de upgrade, da economia do concelho?
Era até possível a Portugal fazer essa excepção à escala europeia. É difícil, mas é possível ter uma estratégia que, em tempos de dificuldades globais, faça a diferença. Quando falo do projecto de Gaia é um pouco na crença de que, nesta Europa aberta, regiões e cidades vão desenvolver-se e outras vão ficar para trás. Não vamos ter uma harmonização de desenvolvimento entre estados. Teremos, num estado, cidades muito pujantes e desenvolvidas e outras que ficaram para trás. Nós conseguimos este boom porque estabelecemos a nossa estratégia, fizemos o nosso trabalho de casa e fomos buscar o investimento onde havia dinheiro, na Europa, Estados Unidos, Brasil, através daquilo que os portugueses fazem bem, que é o relacionamento pessoal, face a face. Portugal deveria apostar muito na diplomacia económica, deveria ter embaixadores plenipotenciários, aproveitando ex-ministros como o dr. Balsemão, ex-presidentes como o general Eanes e o dr. Soares e pô-los a correr pelo mundo. Nós fazemos isso bem feito e, apesar da crise, há lugares do mundo onde não falta dinheiro.
Já que fala em dinheiro, prevê uma quebra de receitas na autarquia no próximo ano?
Prevejo, e já estamos a senti-la, nomeadamente nas receitas que decorrem do funcionamento da economia: a derrama, o Imposto Municipal sobre Transacções e as receitas de publicidade caíram substancialmente.
Com esta quebra de receitas, o serviço de dívida da autarquia não vai ser um fardo mais pesado já nos próximos anos?
Fala-se muito das dívidas das autarquias e das dívidas da Câmara de Gaia. Não há nenhuma grande empresa no mundo que não faça investimentos com recurso ao crédito. E a dívida das autarquias ou é legal ou é ilegal. A nossa é legal e, no endividamento per capita, a dívida de Gaia é a 56.ª do país.
Por isso não lhe pergunto se a dívida é demasiado grande ou pequena. Apenas se pesará ou não nos projectos que dependem do financiamento municipal.
Os nossos recursos dão para satisfazer os nossos compromissos com os funcionários, com o serviço da dívida e outros aspectos fundamentais. E temos os investimentos dos próximos dois anos muito assentes no QREN [Quadro de Referência Estratégico Nacional]. Tínhamos o nosso trabalho de casa feito, e mal abriu o período de candidaturas apresentámos uma catadupa de projectos. Somos neste momento a câmara do país com maior volume de apoio financeiro do QREN em execução. E apostámos também em parcerias público-privadas,
com financiamento quase exclusivamente privado em muitos projectos.
Quais seriam os grandes pilares do seu próximo mandato?
Autárquico?
Sim…
[sorrisos] A passagem definitiva para os grandes objectivos mais imateriais: educação, acção social, cultura, afirmação da cidade como uma referência regional na atracção turística. E vamos continuar a tentar captar investimentos significativos para um território muito grande e que ainda tem espaço para acolher grandes indústrias. Já começámos isso neste mandato, na educação, onde garantimos no básico disciplinas como a informática, o inglês, a educação física e a música, há sete anos, e agora vamos criar uma disciplina extracurricular do Ensino do Mar. Vamos motivar as crianças para esse potencial, uma área onde nada se tem feito no país. E vamos introduzir os jogos olímpicos de pais e professores de Gaia, nas escolas. Começámos este ano as dar livros escolares a todas as crianças do básico e queremos, em quatro anos, fazer isso em todo o ensino obrigatório. A acção social, na primeira infância, e para os idosos, será uma prioridade. E também apostar muito na dinâmica cultural, organizando iniciativas como o Red Bull Air Race, as 24 Horas de Kart de Gaia, o festival de teatro que vamos lançar… tudo isto sob um chapéu: O Festival do Vinho do Porto, um conjunto de eventos de lazer e cultura que arranca em Maio e termina em Novembro.
27.10.2008, Abel Coentrão Manuel Costa Leal (Rádio Nova)

in Público, 27-10-2008

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