O PSD indigitou ontem Pedro Santana Lopes como candidato a Lisboa nas eleições autárquicas do próximo ano: com uma grande antecedência, para uma direcção que ainda há poucos dias dizia que era uma estupidez estar a falar de tal assunto fora de tempo; e a reboque de uma estrutura local arrojada e afirmativa, para quem afirmava querer liderar timings e métodos.
A primeira opinião que ouvi sobre o assunto foi a do jornalista Ricardo Costa, que numa intervenção televisiva na SIC N fez uma apreciação rigorosa das implicações de tal opção. Contudo, quando a contextualizou no quadro da turbulência interna do PSD, colocou a minha postura em relação à actual liderança num patamar de um fundamentalismo inconsequente. Em contraste, a posição de outros críticos, principalmente a de Pedro Passos Coelho, era sensata, equilibrada e provavelmente bem sucedida.
O Ricardo Costa teria razão, caso eu estivesse no mesmo comprimento de onda de Passos Coelho no que ao futuro próximo do PSD diz respeito. Ou seja, se fosse um putativo candidato a um regresso à liderança. Nesse caso, num País onde ainda se cultivam as meias-tintas, as meias verdades e a moderação do compromisso permanente, a minha denúncia áspera não colhe com facilidade. Acontece que esse não é, por agora, o meu combate.
O meu combate é mais estrutural e mais de longo prazo. Não gostava que os meus descendentes continuassem a fazer a sua vida no tal País das meias-tintas, e tudo farei para que não seja mais possível desalojar dirigentes e promover outros, de acordo com interesses negociados nos corredores de um centralismo asfixiante, pautado por motivações dúbias e pantanosas.
Por ser assim, não posso deixar de comentar mais esta decisão de Manuela Ferreira Leite e da sua equipa. Uma decisão que demonstra inqualificável incoerência, tacticismo sem convicções e uma falta de seriedade intelectual levada ao extremo do eticamente absurdo.
Mas, para que não hajam dúvidas, comecemos pela minha opinião sobre a candidatura de Santana Lopes. Há pouco mais de um ano aprovei a ascensão de Santana Lopes a líder parlamentar. Tencionava dar-lhe a visibilidade necessária para esbater um menos conseguido ciclo de liderança do Governo, por forma a poder contar com ele para primeira linha dos combates eleitorais de 2009. Comigo, Santana poderia ser candidato a Lisboa, cabeça de lista nas eleições para o Parlamento Europeu, ou líder de um grande distrito na batalha das legislativas. Dependeria da conjugação das nossas vontades e de um juízo definitivo a fazer, prudentemente, lá para a Primavera.
Agora que tudo passou e está decidido, não há inconveniente em afirmar que o importante desafio de reconquistar Lisboa, de manter a presidência em Sintra e de apostar forte nas europeias, passava, na minha cabeça, por quatro protagonistas. Santana Lopes, Fernando Seara, Ângelo Correia e Moita Flores. A posição relativa de cada um deles seria matéria para a tal ponderação primaveril.
Agora, com Santana Lopes em campanha, só me resta desejar-lhe boa sorte e manifestar a minha convicção de que ele tem tudo para vencer. A liderança de António Costa em Lisboa é um erro de casting, de alguém que ainda veste o fato de Ministro de Estado, mas com uma manifesta inabilidade para uma função mais executiva. Com uma vitória, em meu entender possível, Santana renasce para um papel importante no espaço não socialista, baralhando o cenário das presidenciais de 2015.
Então porque não aplaudo a decisão da direcção do PSD? Porque servindo aparentemente o interesse imediato do partido, corresponde, todavia, a mais um acto de descarada falta de verticalidade:
1. Porque foi Manuela Ferreira Leite (MFL) e o seu núcleo central de apoiantes quem mais diabolizou a imagem de Santana. Nomeadamente, quando condenaram a sua subida à liderança em 2005 e tudo fizeram para que fosse derrotado por José Sócrates.
2. Porque foi MFL quem indiciou que não teria votado nele nas eleições legislativas e cuja correcção de tiro, formulada quando das últimas directas, ainda mais reforça a incoerência do actual apoio. MFL afirmou, só há seis meses, que só tinha votado PSD porque as eleições legislativas eram eleições de voto partidário e não de confiança uninominal! Ora, tal não é evidentemente o sentido do voto autárquico. Santana Lopes lá vai ter que ganhar a Câmara da Capital sem o voto da Presidente Social Democrata!
3. Porque foi a ainda presidente do PSD que, na qualidade de presidente do Conselho Nacional, suportou a decisão de afastar Santana Lopes da corrida eleitoral de Outubro de 2005. E é bom recordar que esse afastamento foi estrutural. Não se tratava de impedir uma candidatura não ganhadora, mas antes de expurgar da frente de combate um estilo e uma postura “sem credibilidade e sem futuro” (citação).
4. Porque foram elementos proeminentes da sua equipa quem mais contestou a decisão de lhe conceder a liderança do Grupo Parlamentar. Só por decoro não evoco citações dos actuais vice presidentes Aguiar Branco, António Borges, ou Castro Almeida sobre o populismo de Pedro Santana Lopes. Foi com alguma repugnância que assisti ao anúncio feito pelo inenarrável Castro Almeida. Envergonhadamente, referindo em primeiro lugar a candidatura a Braga (aliás excelente), em detrimento da prioridade que devia merecer a indigitação do concorrente à capital de Portugal. Vergonha compreensível. Castro Almeida foi durante os últimos anos o rosto da província de um Marques Mendes, esse sim convictamente coerente, que afastou liminarmente Santana da presidência da Câmara de Lisboa.