“Há pessoas no PSD que querem que Ferreira Leite tenha um mau resultado”

Com João Marcelino (DN) e Paulo Baldaia (TSF).
Na edição de Domingo do DN, e na TSF Domingo, às 11h10.
“Há pessoas no PSD que querem que  Ferreira Leite tenha um mau resultado”

Anda entusiasmado com os investimentos em Gaia: 1500 milhões de euros, o equivalente a uma expo! Estamos a falar de um centro cultural, teleféricos, dois dos melhores hotéis de 5 estrelas do mundo (ligados a fundos internacionais de pensões), um pólo industrial com 20 empresas, jardins, 2000 fogos de habitação social. O político que não triunfou na presidência do PSD é o mesmo autarca que tem uma invulgar obra na sua cidade. E enquanto espera por todas estas inaugurações, até final de 2010, vai estando atento ao partido
Um ano depois, sente-se arrependido de não ter tido a força para resistir à contestação interna à sua liderança e ter abandonado a presidência do PSD?

Deixe-me fazer uma correcção: não foi não ter tido a força, não quis. Voluntariamente, abdiquei da liderança após oito meses. Contudo, julgo que é importante fazer um enquadramento dessa questão para que não pareça que o dr. Menezes é um dos 15 líderes que o PSD teve já desde o 25 de Abril que foi embora antes do tempo e por razões pouco bem explicadas. Só após o fim do cavaquismo, que eu considero que é a segunda parte da democracia portuguesa consolidada na Europa, o PSD já teve sete líderes. Desde 1995.

O senhor nunca foi a votos…

E desses sete líderes, quatro não foram a votos e foram embora para casa antes do tempo, por mote próprio. Ora eu penso que deveria tirar-se de tudo isto uma conclusão. No mesmo período de tempo, o Partido Socialista teve três líderes, dois deles foram primeiros-ministros com alguma longevidade, o outro é hoje embaixador de Portugal na OCDE.

Mas sente-se arrependido?

Não, não sinto. Eu penso que ajudei a confirmar um problema do PSD: o PSD é, na vida política portuguesa, um partido muito instável, excessivamente conflitual, não é uma família política como é o Partido Socialista. Mais um exemplo, pois às vezes as pessoas reflectem pouco nisto: o PS teve sete líderes desde o 25 de Abril, sete! O dr. Mário Soares, o dr. Almeida Santos, o dr. Constâncio, o dr. Sampaio, o engenheiro Ferro Rodrigues, o engenheiro Guterres e o engenheiro Sócrates. Destes, três foram primeiros-ministros, dois presidentes da República, um é governador do Banco de Portugal, outro presidente do partido, o dr. Almeida Santos, e outro embaixador na OCDE. E estão todos…

Não está com vontade de aderir ao PS?!…

Não, não estou! Estão todos no projecto do Partido Socialista neste momento, convergindo com o engenheiro Sócrates independentemente de algumas discrepâncias pontuais, enquanto no PSD os líderes conflituam, vão embora para a vida privada, ficam a criticar os outros…

É o seu caso, diz-se.

Também! Porque não? Temos que o reconhecer! Portanto, há um problema no PSD! Qual é o problema? É um problema identitário, o PSD não conseguiu construir uma identidade, a identidade é que promove a reunião da família. E o que é uma identidade? É organização, é ideologia, é um programa perene que une as pessoas entre si, é tudo aquilo que nós, que eu, como líder do PSD, quis construir.

Numa visão macro, quantos PSD é que consegue visualizar? Dois?

Eu penso que, se quiser ir por aí…

Queríamos perceber um bocadinho melhor o seu partido.

A questão hoje já é bem mais complexa do que essa, mas se quiser ir por aí há uma ancestral dialéctica entre duas visões do PSD. Eu diria uma mais liberal e uma mais social-democrata. Uma mais, do ponto de vista idiossincrático, mais urbana, ligada às elites, nomeadamente às elites que gostam do centralismo, e outra, digamos, mais popular.

Que é a sua?

Não vamos colocar a questão comigo ou com a actual liderança. Se olharmos para trás, o dr. Sá Carneiro, por exemplo, andou seis anos a conflituar com dois cismas brutais, um deles de 70 deputados de grande dimensão, como Sousa Franco, como Barbosa de Melo…

O PSD só teve estabilidade com Cavaco Silva.

… Cavaco Silva andou seis anos a conflituar para chegar à liderança do partido! O conflito Durão Barroso/Fernando Nogueira mostrou esta linha de clivagem e a minha chegada à liderança foi, um pouco, a vitória desse PSD popular, nacional. E o conflito continua, o problema não está resolvido.

Em que momento é que decidiu que não havia volta a dar,  que era preferível sair ?

Falarei um pouco daquilo que eu considero que estava a ser colocado de pé e que é preciso ser colocado de pé dentro do PSD do ponto de vista da organização, da ideologia, do programa. Mas apercebi-me de que essa conflitualidade ancestral entre as elites urbanas do PSD, nomeadamente em Lisboa, e o PSD profundo, nacional, que tinha atingido o limite do insuportável. É possível ganhar um grande partido e até ganhar um país com base no voto popular maioritário. É impossível governar um grande partido e um país sem unir o voto e o apoio popular ao apoio das elites dirigentes, independentemente do carácter delas e da qualidade delas. E eu constatei que não tinha sabido, não tinha podido conquistar o apoio dessas elites. Aliás, julgo que na história do PSD só houve dois momentos em que essa questão se colocou de uma forma muito visível: foi com a liderança do dr. Nogueira, manifestamente muito curta também.

E antes disso, com Santana Lopes, não acha que aconteceu o mesmo?

Há pouco foi dito que eu tenho, aqui e acolá, nomeadamente há uns meses, criticado bastante esta direcção do partido. Contudo, vamos ter memória: quando eu fui líder do partido, durante seis meses, dia sim, dia não, eu tinha o dr. António Borges, o dr. Aguiar Branco, o dr. Castro Almeida, o dr. Matos Correia…

A actual direcção?

… os dez secretários-gerais, a propósito de tudo e de nada, era as setas do PSD que deviam ser azuis, eram as quotas que se tinham de pagar assim e assado, era agências de comunicação, que toda a gente usa em Portugal, desde o engenheiro Guterres ao dr. Cavaco, que não podiam ser utilizadas por mim… Era um ruído de fundo de tal forma intenso e às vezes até caricato… Perante estas circunstâncias, eu também achei que poderia ter uma atitude pedagógica. Estava a passar-se para o País a ideia de que o outro PSD, o PSD que hoje é dominante e que eu respeito - venceu eleições -, que esse era o PSD fabuloso, que era um PSD em que estavam as pessoas com uma capacidade intelectual, com uma formação política, com uma preparação técnica de tal forma avassaladora que o povo iria delirar, iria ululantemente atrás dessa nova alternativa. Eu queria provar também que não era assim e dei um passo atrás. Um jornal insuspeito, o Expresso, publicou há dias um artigo que, entre várias coisas, demonstra que foi comigo que, pela primeira vez, o engenheiro Sócrates desceu da maioria absoluta. Foi comigo, pela primeira vez em cinco anos, que o PSD se aproximou dos 35 por cento. E mais, deixe-me citar o Expresso, a minha amiga Ângela Silva: “Menezes foi o mais estável líder do PSD dos últimos seis anos. Evoluiu de 4,5 para 7,4 sem nunca ter descido para valores negativos. Ferreira Leite tem os piores resultados destes seis anos.” Bom, no fundo está provado.

Está provado que não devia ter desistido?

Perante a opinião pública, o país real, o caminho que estávamos a traçar era o caminho correcto.

Mais uma razão para não ter desistido.

Não, não é verdade. Porque eu acho que seria absolutamente insuportável, o PSD acabaria por ser penalizado, e eu próprio, mesmo em termos de sondagens, perante aquele clima que estava a ser permanentemente criado. Por outro lado, a partir de agora o PSD já sabe para o futuro que não há homens nem mulheres providenciais. Que não são campanhas destrutivas de imagem, de carácter, que fazem com que a verdade passe a ser mentira e a mentira passe a ser verdade. Isto, para o futuro do PSD, é importante. E a minha mensagem é fundamentalmente esta, sem revanchismos: em conjunto temos que resolver o problema de fundo, a tal construção de uma identidade que faça com que uns e outros, todos, tenhamos possibilidade de estar unidos no PSD e de construir uma plataforma que faça com que o PSD não seja este….

E acredita que o PSD, como está, pode vencer as eleições legislativas deste ano?

Sinceramente, acredito. E se depender de mim tudo farei, e darei contributo para que assim seja. O PSD continua a ter uma base militante muito forte.

Mas só pode consegui-lo por demérito de quem está no poder, visto que tem tantas divergências e problemas internos.

Com certeza, muito por demérito de quem está no poder. Eu acho que os portugueses estão a ficar fartos da actual governação. E pode acontecer o que muitas vezes acontece, que é não olharem tanto para a alternativa, mas olharem para o que está e dizerem “Nós não queremos mais isto, vamos experimentar outra coisa, seja ela qual for.” E acredito que esse limiar pode estar a ser atingido, nomeadamente se o PSD souber, daqui até às eleições, colocar o enfoque numa crítica correcta à governação socialista destes quatro anos.

E está a conseguir fazê-lo?

Eu julgo que ainda não está a fazê-lo, mas tem possibilidade de o fazer. É evidente que temos alguns problemas pelo caminho, como por exemplo a barreira das eleições europeias.

Paulo Rangel é um bom candidato para catapultar o partido para eleições legislativas, para ganhar as europeias?

Eu acho que é sempre muito delicado e muito arriscado fazer esse tipo de juízos apriorísticos em cima dos acontecimentos. Eu não lhe sei responder, sinceramente.

Como é que viu as divergências que foram tornadas públicas entre Manuela Ferreira Leite e o seu primeiro vice-presidente, Rui Rio, a propósito da escolha do candidato?

Eu falo já sobre essas divergências, são divergências convenientes. Mas quanto às eleições europeias, primeiro, eu penso que já há aqui alguns erros de casting que poderiam e deveriam ter sido evitados. O PSD tem que corrigir rapidamente a linha e o comportamento se quer ganhar eleições. Não se pode criar este tabu imenso e depois não se saber escolher o momento e as circunstâncias em que se apresenta uma solução. Não se pode apresentar um candidato, nem que seja o senhor Obama, no dia em que o Banco de Portugal centra o debate político em Portugal na questão da situação económica e social catastrófica a que o País chegou e que fez com que os telejornais, durante toda a noite, os comentadores, as mesas-redondas, debatessem fundamentalmente essa questão, que era a questão que realmente interessa aos portugueses. Isso teria que ser pensado, adiado. Depois, não se apresenta assim como se apresenta uma pessoa qualquer, “olhe, está aqui ao meu lado, vai ser este”. As coisas têm que se fazer hoje com alguma pompa, com alguma circunstância, como o Partido Socialista fez no seu congresso. E depois, tem que se aparecer imediatamente com um discurso global consistente. Há aí uma polémica sobre se devemos discutir a Europa ou o País. É uma polémica falsa, devemos discutir as duas coisas, que elas estão intimamente ligadas. Mas eu gostava de ver o PSD a aparecer, neste momento, a falar das questões da Europa que interessam ao País e mostrar que tem uma visão de Estado acima do Partido Socialista. Dizer, e está em cima da mesa, o que é que pensa do modelo de desenvolvimento económico e social europeu e também português, o que pensa do Estado social europeu… É possível mantê-lo? É possível continuar a dar saúde, educação, segurança social, protecção social às pessoas nesta Europa? O que pensa da globalização? O que pensa da política energética, fundamental até do ponto de vista de política externa? E isso são questões também de política nacional. Portanto, isto não começou bem. E não tem a ver com a personalidade que foi escolhida ou deixou de sê-lo. Acho que temos que pautar o discurso por ter um discurso europeu que tenha a ver com as questões nacionais, demonstrar que somos um partido com uma visão de Estado. E o dr. Rangel, ou qualquer outro, podem ser capazes de o fazer.

Mas a quem convêm as divergências ?

Há divergências convenientes. Eu penso que há pessoas que querem que a dr. Manuela Ferreira Leite tenha um mau resultado. Convém descolar da dr. Manuela Ferreira Leite para depois, no dia seguinte, dizer: “Nós não tivemos culpa, talvez seja melhor a dr. Manuela Ferreira Leite ir para casa e nós ocuparmos o seu lugar.”

Essas pessoas têm nome? As divergências são entre Ferreira Leite e Rui Rio…

A dr.ª Ferreira Leite chega à liderança do PSD apoiada, no essencial, pelas pessoas da actual Comissão Permanente, dr. Rui Rio, dr. Borges, dr. Aguiar-Branco. É um pouco bizarro que, poucos meses depois, em relação a uma questão concreta de escolher uma pessoa que, por acaso, até foi secretário de Estado de um dos vice-presidentes, haja uma divisão, segundo a imprensa diz, de quatro-quatro na Comissão Permanente. Só posso ver nisso taticismo e uma tentativa já de empurrar a dr.ª Manuela Ferreira Leite pela janela fora, coisa em que eu não participarei.

Se o PSD não vencer as próximas, da Europa, Manuela Ferreira Leite deve tirar consequências desse resultado?

Depende do resultado.Se não as ganhar, não. Quer dizer, temos um processo evolutivo até Outubro, se o PSD tiver um resultado digno…

O que é um resultado digno, precisamente? Números?

Aproximar-se do Partido Socialista, uma diferença de, se fosse de dois, três pontos percentuais seria um extraordinário resultado.

E sempre acima dos 30 por cento?

Um PSD acima dos 29, 30 por cento, está sempre no combate para ganhar eleições em Outubro. Hoje, num mês, seis, sete por cento em sondagens alteram-se rapidamente! A não ser que o PSD viesse para os 20 por cento, 24, 25. Isso seria muito mau e, porventura, mereceria uma reflexão de todos. Mas, atenção, sem golpes de Estado! Se isso viesse a acontecer, eleições, pôr o povo laranja a escolhe…

E o partido teria tempo para fazer isso tudo?

Hoje em dia, 15 dias são uma eternidade em democracia. E não cingirmos as opções àquelas que estão em cima da mesa, o partido não pode estar permanentemente a escolher líderes pela comunicação, pela lógica, pela inércia. Estamos a falar de jovens, de uma mudança de geração. Pessoas como o Morais Sarmento, por exemplo, têm que ser lançadas para cima da mesa, o PSD tem muita gente boa.

Teme que esse golpe de Estado de que fala seja para, perante um mau resultado, Rui Rio aparecer como candidato a primeiro-ministro?

Seria absolutamente inaceitável. Até porque, se bem se lembra, quando isso aconteceu com Durão Barroso, Santana Lopes substituir Durão Barroso, a dr.ª Manuela Ferreira Leite foi a mais coerente oponente dessa lógica. E até utilizou o termo golpe de Estado!

Mas eu pergunto-lhe se o teme - até porque está a utilizar o mesmo termo.

…Quem foi tão coerente à época não poderia agora ser complacente perante algo semelhante. Mas eu quero acreditar que, independentemente das insuficiências, dos erros, a dr.ª Manuela Ferreira Leite vai ter um bom resultado nas eleições europeias e vai ser candidata a primeiro-ministro. Vamos todos procurar ajudar. Eu, da minha parte, estou disponível para ajudar. Assim me peçam.

Isso quer dizer: participar na campanha e ao lado da dr.ª Manuela Ferreira Leite?

Claro. Se isso me for solicitado, já amanhã.

in DN e TSF, 19-04-2009

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