Abandonei a liderança do PSD, por vontade própria, após um breve consulado de oito meses, e após ter sido o líder partidário escolhido por mais cidadãos de base desde 1974.
Saí com o sentido do dever cumprido, mas humanamente ressentido com as injustiças e as deslealdades assumidas por muitos dos que hoje constituem a direcção nacional do meu partido.
Contudo, porque indirectamente sou, por omissão, o pai desta solução de liderança, porque continuo militante activo - candidato à presidência do terceiro mais populoso município português, porque ainda existem muitos milhares de militantes e simpatizantes que se revêem nas minhas opiniões, tenho o direito e a obrigação de me manifestar claramente sobre o processo que culminará em 27 de Setembro.
Para o fazer, tenho que recuar às eleições europeias de Junho. O PSD venceu-as, inesperadamente, por uma diferença percentual significativa.
Um resultado interessante, dada a quebra brutal do PS, enganador, para quem não se apercebeu de que o PSD se limitou a ficar dois escassos pontos acima da denominada - injustamente - derrota eleitoral humilhante de Santana Lopes em 2005.
O resultado não me surpreendeu. Correspondeu ao que sentia na rua. A campanha de Paulo Rangel ajudou: um falso “desajeitado”, corporizou o que muitos eleitores desejavam. A renovação, a novidade, o discurso levemente antipartidos e antipolíticos, a imagem do cidadão comum competente em comissão de serviço. Também foi positiva a perspicácia de erigir José Sócrates como o alvo de todas as críticas.
Com a vitória de Junho, parecia ter-se instalado a dinâmica mínima necessária para conduzir o PSD à liderança do Governo. Infelizmente, muito do que tem acontecido desde então voltou a trazer incerteza ao resultado final. Nomeadamente, o processo de escolha de candidatos a deputados e as suas sequelas (por exemplo o affaire Moita Flores), as declarações estratégicas avulso e desconexas de muitos dirigentes e, menos, o conteúdo do programa eleitoral ontem apresentado.
As listas de candidatos foram escolhidas unilateralmente pela líder e seus colaboradores. Legalmente, cumprindo os estatutos, legitimamente, porque nunca prometeu - ao contrário de mim próprio - inverter as regras e dar poder ao país e às bases. Não enganou ninguém. Todavia, levou longe de mais esse exercício. A exclusão de Passos Coelho, Miguel Relvas, Rui Gomes da Silva, foi um disparate político; a inclusão de António Preto uma opção errada; a imposição de alguns cabeças de lista sem nexo aparente com os ciclos eleitorais um exercício sem sentido. Até o facto de existirem muitos filhos de políticos nas listas - talvez em excesso - só ganhou relevância dado o clima de fractura escusadamente criado. Esta questão parasitará, negativamente, todo o processo em curso.
Como corolário deste clima, surgiram casos como o de Moita Flores. Candidato independente nas listas do PSD, renegou o partido e a sua candidata a primeira-ministra. Elogiei-lhe pessoalmente a coerência, mas esperava que, naturalmente, afirmasse uma candidatura genuinamente independente. Para minha surpresa, não o fez.
Sem fazer juízos de valor em relação às opiniões do presidente da Câmara de Santarém, não me passava pela cabeça que a líder do partido, face ao seu perfil, não o desonerasse de imediato do apoio partidário nas eleições locais. Não o fez. Ao contrário, seguiram-se declarações quase caricatas de Aguiar Branco e explicações caricatas da própria Manuela Ferreira Leite na entrevista a Judite de Sousa.
Moita Flores devia ter sido consequente e ter-se desvinculado de uma ligação ao PSD. Manuela Ferreira Leite coerente, assumindo a autoridade mínima exigível a uma organização de homens livres mas consequentes, retirando o símbolo do PSD da sua candidatura.
O processo da lista de deputados e este episódio acompanharão toda a campanha. Contraditando a unidade apregoada e, principalmente, a imagem de convicta afirmação de princípios em que assenta toda a estratégia eleitoral social-democrata.
Mas, infelizmente, houve mais.
A líder do PSD clarificou a questão fulcral da política de alianças. Com ela, não haverá bloco central. Ontem, João de Deus Pinheiro, cabeça de lista por Braga, defendia com radicalidade uma coligação PSD-PS!
António Borges, com o seu habitual bom senso, acusa a Caixa Geral de Depósitos e o BCP de fazerem política partidária; um outro vice-presidente contrariou-o de imediato!!!
Marques Mendes usa a Universidade de Verão para afirmação de ideias que atingem objectivamente Manuela Ferreira Leite; Rangel contraria-as na defesa da direcção nacional.
Enfim. Mais imagem de falta de rumo e de autoridade. Desnecessária. No momento de arranque do derradeiro sprint.
Finalmente o programa eleitoral. Tardio e minimalista? Acho que não. A tempo e mínimo, como deve ser. Mas também sem desígnio, generalista em excesso, sem fracturas, omisso nas questões difíceis, sem risco. Metade daquelas declarações podia ser defendida por todos os partidos, a outra metade por qualquer um não-marxista-leninista.
Este programa não tirará um voto ao PSD, mas deixará toda a sorte da campanha no convencimento subjectivo do eleitorado de que Manuela Ferreira Leite é mais confiável do que José Sócrates.
Contudo, apesar de tudo isto, eu não tenho dúvidas. Votarei com convicção PSD e na escolha de Manuela Ferreira Leite para liderar um Governo. É, no meu entender, esse o interesse de Portugal.
Porque este Governo PS foi dos piores governos constitucionais pós-25 de Abril, porque está esgotado, sem ideias e sem energia. Irrecuperável.
Porque a opressão do aparelho socialista sobre a sociedade portuguesa toca o limite da tentação totalitária.
Porque, apesar de tudo, o discutível grupo parlamentar do PSD é brilhante face ao cinzentismo do grupo socialista.
Porque ainda acredito que Manuela Ferreira Leite, após um sucesso eleitoral, se verá livre de todos os que a têm procurado empurrar para o abismo.
Porque acredito que nunca subscreverá uma coligação com o PS. Porque, dentro do PSD, terei um espaço de liberdade para lutar pela alteração de opções que, em meu entender, estão erradas e devem ser corrigidas - sobre a política de investimentos públicos, sobre a regionalização, sobre a política fiscal.
Só falta um mês. Pouco tempo, mas o suficiente para um PSD, que, à moda de Sá Carneiro, se concentre no essencial e combata com determinação e coragem.
Luís Filipe Menezes
Ex-presidente do PSD
in Público, 30 de Agosto de 2009