O PSD está muito doente

Este intervalo a que a Direcção do PSD condenou o partido é revoltante. Com o País em crise, com o Governo à deriva, com as oposições dos “pequeninos” a colocarem-se em bicos de pés sem ninguém as levar a sério, o maior partido da oposição pediu ao árbitro um desconto de tempo.

O único verdadeiro garante do contraditório democrático, foi condenado a uma cura de emagrecimento por uma liderança que tem como único património ter conspirado contra a anterior e conduzido o partido à mais humilhante derrota dos últimos decénios.

Trata-se da mais irresponsável decisão da história do PSD.

Condenar o partido a uma condição de gestão corrente durante a primeira e única (?) sessão legislativa desta legislatura é algo de kafkiano. E qual o objectivo nobre de tal opção? Esperar em “estabilidade!”pela aprovação do Orçamento de Estado!? Se tivessem sido convocadas eleições em Setembro passado, o PSD já estaria em velocidade de cruzeiro e com uma nova liderança desde Novembro!

Infelizmente, a única razão para este período de nojo, tem a ver com o facto de uma pequena clique, que reparte e fica com a melhor parte há década e meia, estar a ter dificuldades de encontrar uma solução que impeça que os militantes de base, esses “aventureiros ignorantes”, escolham pela sua cabeça. Ou seja, contra os seus interesses. Cuidado, não vão eles lembrar-se de escolher um outro qualquer Menezes que os obrigue a um novo e desgastante golpe de estado.

Entretanto, a paródia dá para tudo. Santana anuncia um Congresso, Ferreira Leite aplaude e apoia, para de imediato a sua comissão política lhe tirar o tapete em público e recusar liminarmente tal opção!

Balsemão anuncia há um mês o apocalipse do partido, ontem diz vê-lo pujante e vivo como nunca!

Marques Mendes, em palestra aos quadros da Jerónimo Martins, com a habitual postura de pai da Pátria, debita um eloquente projecto de salvação nacional: círculos uninominais já, reforma de uma justiça moribunda, comissão para negociar perenemente os grandes projectos públicos, fim da escola pública - colocando o enfoque na subsidiação familiar da opção público ou privada!

Para além de que não chega repetir banalidades com pose de estado para elas terem sentido, é feio mudar de opinião e aligeirar responsabilidades com tanto à vontade. Marques Mendes abortou a negociação da introdução dos círculos uninominais quando era líder do PSD e subscreveu com o Governo Sócrates, com pompa e circunstancia, “um Pacto de Regime para a justiça, que iria moldar o sistema judiciário a um quadro de estabilidade e eficiência por uma década”. Há pouco mais de um ano e meio.

Também recordo o seu silêncio crítico quando propus um pacto de regime para definição dos investimentos públicos para duas legislaturas, pois quanto à liquidação da escola pública como pilar do Estado Social nem vale a pena falar. Em demagogia, por erro e impossibilidade prática, só pode ser comparada à do Dr. Louçã.

Nos hiatos desta comédia, Passos Coelho, por quem tenho simpatia pessoal, reafirma uma candidatura que, apesar da sua coerência, ainda não mobilizou entu- siasmos. Rangel segue o trilho de S. Pedro, mas tem que ter cuidado pois já vai na terceira nega. Marcelo, como S.Tomé, quer tocar tactilmente em 100 por cento de apoios para ter coragem de avançar e Manuela Ferreira Leite ainda acredita que o oráculo Pacheco tem razão e que uma qualquer asfixia metamorfoseada de “face mais ou menos oculta” ainda pode fazer o milagre de a conduzir ao poder.

Mais uma vez elogio a postura serena do Grupo Parlamentar, oásis neste deserto. Só é pena não lhe colocar, por agora, o poder nas mãos, pois iniciativas como a que desenvolveu a propósito da união de pessoas do mesmo sexo, têm tudo a ver com a atitude tolerante e equilibrada que fez a boa história do PSD.

Quanto ao futuro, aguardemos. O PSD está muito doente, mas os seus militantes podem salvá-lo. Quando tudo começar a sério, direi o que me parece ser importante. Sobre ideologia, programa e estratégia.

Vou querer ouvir o que pensam os verdadeiros candidatos. Sobre a salvação do Estado social, sobre a regionalização, sobre a harmonização fiscal no espaço peninsular, sobre políticas sociais para os bairros em explosão, sobre a liquidação das golden share filhas do bloco central dos interesses, sobre a Revisão Constitucional e sobre a evolução do semi presidencialismo. Finalmente, se alguém pensa de facto alguma coisa sobre coisas verdadeiramente sérias.

in DN

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