A Primavera do PSD

Há semanas afirmei que veria com bons olhos a renovação ao nível da liderança do PSD. Tal foi de imediato interpretado como um apoio à candidatura de Pedro Passos Coelho. Foram tidos como sinais nesse sentido o facto de o meu filho mais velho ter sido seu mandatário e de o meu vice-presidente e principal aliado político ter estado na apresentação do seu livro.

Igualmente, para alguns espíritos obcecados, o facto de ter apreciado publicamente as prestações parlamentares de Aguiar-Branco, seria a tradução de uma contradição, pois agora já estaria a apoiar um outro putativo candidato.

Como há dias referi numa entrevista televisiva, a candidatura assumida de Passos Coelho, a hipotética de Rangel ou a “ensoleirada- mente” empurrada de Marques Mendes ainda não tinham, em conjunto, suscitado o entusiasmo de uma única, mobilizadora e formalmente forte. É uma evidência, que não diminui pessoalmente nenhum dos três, nem sequer significa que um deles, ou qualquer outro nas mesmas circunstâncias, não possa a vir a ter sucesso no futuro.

Todavia, assumidamente, não sendo candidato a tal cargo, não apoiarei expressamente nenhuma candidatura. Contudo, tal não me inibirá de participar no debate público sobre o futuro do meu partido de sempre, de estar presente em iniciativas diversas e de comentar todo o processo. É isso que hoje faço.

Independentemente do que ainda venha a acontecer, antecipo que dificilmente alguém já baterá Passos Coelho nessa disputa.

Porque é o único que até agora mostrou vontade de poder, e isso é uma condição indispensável para o conquistar; porque é o único que já tem uma rede mínima de logística nacional de apoio, necessária a uma campanha longa que tem de chegar a todo o lado; porque já suscitou o apoio aparente de estruturas distritais com peso eleitoral incontornável; porque consegue somar à base social de apoio que no essencial coincide com a minha - só por isso potencialmente maioritária - alguns dos rostos que mais contribuíram para o meu afastamento (somar é sempre bom quando se trata de eleições).

Vamos esperar pelos próximos capítulos e ver como o núcleo duro da actual direcção, Pacheco Pereira, José Luís Arnaut, António Borges e alguns outros, que nunca representaram um voto partidário mas sempre sobreviveram nas fraldas do poder, vai encontrar o buraco da agulha para não perderem privilégios. Como inventarão um candidato de última hora, como arranjarão um discurso rebuscado para se colarem ao movimento em curso, ou como, em alternativa, voltarão às “montanhas do Kandahar político” para uma nova luta de guerrilha, virando de novo as setas do PSD de cabeça para baixo e ameaçando o líder de ser destronado à bomba?

Mas a crítica de falta de entusiasmo à sua candidatura, que ainda mantenho, é o grande desafio que Passos Coelho terá de vencer. O livro publicado clarifica pensamento, mas é fundamental que as ideias expressas sejam mais sistematizadas. Na formatação ideológica, na definição do desígnio estratégico para o País, na formulação das políticas concretas, no posicionamento em relação aos grupos de pressão. Não chega ganhar, é importante que o novo presidente chegue ao poder empurrado por alegria e crença.

Tal como outros no passado, o próximo líder, se for eleito com esta base social de apoio, não vai ter descanso desde o primeiro dia. Precisa, pois, do suporte desse referido entusiasmo. Vão tentar “obrigá-lo a nomear A para o gabinete de relações internacionais, B para presidente de uma importante comissão parlamentar, C para líder do grupo de deputados, D para a assessoria de imprensa - até nem se inibirão, como já o fizeram, de lhe prognosticar curta ou longa vida, quanto à sua permeabilidade a tais pretensões. Da capacidade de resistência a esse take over e a uma concomitante comunicação social hostil vai depender o seu futuro e o do PSD.

Como soldado da construção de uma alternativa de Governo séria e credível, manter-me-ei militantemente participativo e crítico. À espera de uma boa Primavera, que não seja a de “Praga”, porque essa ainda nos condenou a uma longa espera.

LUÍS FILIPE MENEZES

in DN - 23.01.2010

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