A tensão política da última semana teve o final previsível e habitual em Portugal: o das meias-tintas. A velha e portuguesíssima síndroma do “agarra-me, agarra-me, senão bato-lhe” voltou a reinar.
O Governo, que indiciou a hipótese de avançar com a bomba atómica da resignação, recuou, encontrando meia dúzia de dribles jurídico constitucionais para seguir em frente. A oposição canta vitória após mais uma coligação negativa, em que o aparente paradoxo de unir o Bloco de Esquerda ao CDS é proporcional à falta de sentido de responsabilidade de todos.
O Presidente da República suspirou de alívio e continua-rá a peregrinar pelo consenso parlamentar.
Os analistas dirão que está tudo bem: cada um fez o que tinha a fazer, mas finalmente preservou-se a “estabilidade política e a gover-nabilidade”.
Ora é precisamente aqui que está o busílis da questão. Os últimos cem dias já demonstraram que não existe estabilidade, nem política, nem governativa. Estabilidade político-governativa não é, ou não devia ser, assegurar a regularidade formal do exercício de poder. A legitimidade democrática e o psicodrama parlamentar que mantêm o Governo em funções têm de ser compaginadas com outros factos.
O País está a braços com uma crise económica e social gravíssima e com um descontrole pesado das suas finanças públicas.
O desemprego está a caminhar para um abismo, em que a insegurança e as tensões sociais se podem tornar difíceis de conter.
A exigência europeia de forçar correcções estruturais drásticas em escassos três anos é impossível de atingir.
O Governo, fruto do desgaste brutal que a conjuntura e erros próprios colocaram sobre si, é globalmente titubeante e cinzento, parecendo mais um bando de directores-gerais em fim de comissão de serviço - as boas excepções da Economia e Administração Interna ou as boas surpresas das Obras Públicas e Ambiente não salvam o quadro geral.
A oposição balança entre a irresponsabilidade irrecuperável da extrema-esquerda, a irresponsabilidade autofágica do PSD e a traquinice ladina do CDS (apesar de tu- do, o único partido com um norte).
O País afunda-se numa cratera dura e áspera - que saudades do “pântano” e da “tanga”! - onde coabitam desesperança e pobreza, caldeadas por um absurdo justicialismo - filho dos nossos piores defeitos, que são a inveja e o ciúme.
Desde a unanimidade em aumentar a despesa para apoiar com gratuitidade todos os doentes com psoríase - não cuidando de se- parar os pobres dos remediados - até à loucura de propor a devas- sa fiscal de todos os cidadãos, desde a capitulação perante o sindicalismo mais retrógrado da CGTP -, como está a acontecer na educação, até ao anoni-mato da inexistência que tem pautado a actuação da maioria dos ministros, é esta a fotografia de uma pseudo-estabilidade mentirosa.
Mais uma vez vamos fazer tarde de mais o que era óbvio. O caos só será parado com uma base social de apoio alargada. Uma base social de apoio alargada só é possível com acordo de governação participado. Nenhum líder, nomeadamente com a fragilidade dos que temos, suportará na oposição, de forma perene, as políticas de austeridade e as reformas que vão ter de ser aplicadas.
Tarde, provavelmente só depois das eleições presidenciais, isto vai tornar-se evidente. Com ou sem eleições, o País só será recuperável com uma grande coligação, em que participem todos os que acreditam no núcleo essencial em que assenta a nossa democracia: Europa e Estado de direito democrático, liberal na economia e social nas preocupações com a coesão da cidadania.
Claro que é preciso superar uma dificuldade: encontrar a convergência de personalidades que no passado uniu Freitas do Amaral a Mário Soares e mais tarde este a Mota Pinto. Para salvar o País, vai ter de se ter a humildade da partilha real. De responsabilidades e de poder.
in DN, 6 de Fevereiro de 2010