Esta semana, o suicídio, num curto espaço de tempo, do décimo terceiro operário de um complexo fabril chinês correu o mundo.
Todos muito jovens, trabalhavam num conglomerado industrial fabricante do iPhone. Co-habitavam com 540 mil colegas, aproximadamente o número de desempregados portugueses!
A mesma notícia descrevia ainda as deficitárias condições de alojamento e alimentação de mais de meio milhão de pós-adolescentes, que ali têm um salário médio de 102 euros e um horário de trabalho de 60 horas, seis dias por semana!
Esta notícia podia ser compaginada com uma outra que, há dias, a propósito do dia mundial da biodiversidade, evocava os criminosos desmandos antiambiente perpetrados pelo Estado chinês. A má novidade declarava como extinta uma espécie de mamíferos, o golfinho lacustre de água doce - baji, que vivia há mais de 20 milhões de anos nos quase quatro mil quilómetros do rio Yang Tsé. Quatro mil quilómetros transformados num dos maiores receptores do mundo de todo o tipo de poluição. De resíduos sólidos urbanos a ribeiras de saneamento a céu aberto, de metais pesados a todo o tipo de efluentes industriais. Tudo é debitado para o rio com a maior liberalidade e impunidade, transformando-o num grande vazadouro universal.
Estas notícias deviam abrir os olhos a uma Europa decrépita, doente e, tal qual os jovens chineses, suicidária.
É altura de Durão Barroso, Angela Merkel e todos os outros líderes europeus terem o sentido de responsabilidade de ver o óbvio. A Europa não está de rastos por causa da crise do subprime e das suas sequelas. Esse episódio só pôs a nu a grave doença de que já padecia. A Europa está catatónica porque, absurdamente, entrou no jogo de uma globalização que só beneficia as potências emergentes do Oriente, parte da América Latina e, por pouco tempo, os Estados Unidos da América. É claro que beneficia, também, umas dezenas de multinacionais famintas de lucros. Muitas são europeias, que achavam que na Azambuja ou em Avintes já não podiam ter as condições de exploração selvagem que têm em Shenzhen.
Não entender que a Europa dos direitos do homem, do Estado social, dos salários elevados, do pleno emprego e das regras ambientais draconianas - tudo “vícios” caros - não poderá nunca competir com quem destrói a esmo a natureza, coloca crianças a trabalhar, paga salários de escravatura e não sabe o que são direitos mínimos do ser humano, é não entender nada.
Infelizmente, a cegueira é tão grande que começo a temer que esses dirigentes autistas só se venham a compenetrar da gravidade da situação quando hordas de desempregados desesperados vaguearem pelas ruas, entre a miséria absoluta e a violência agressiva.
Esta questão vale a pena ser reflectida num momento em que a Europa se divide entre os que ainda têm condições de resistência mínima e os que já começaram a capitular - Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda…
Uma observação cuidadosa mostra que estas primeiras vítimas são os quatro países do alargamento da União em 1986. Todos receberam 24 anos de apoio à sua infra-estruturação básica, mas, aparentemente, tais apoios pouco valeram às suas economias. Será que foram todos assim tão incompetentes? Sem aligeirar responsabilidades próprias, que também existem, todos estes países são igualmente vítimas de uma Europa sem norte.
Uma Europa que nos pagou para destruir o nosso tecido produtivo. Para destruir a agricultura em favor dos agricultores ricos e subsídio-dependentes do centro da Europa, que nos pagou para destruir as pescas em favor das potências pesqueiras do Norte do continente (e neste caso da própria Espanha), que nos pagou para aceitarmos ser os primeiros cordeiros de sacrifício de uma desindustrialização maciça, que transportou as nossas fábricas de mão-de-obra intensiva - antes de termos tido condições de construção de um modelo de desenvolvimento alternativo - para o Leste e para a Ásia.
Assim, o futuro talvez tenha de passar por uma aliança dos mais desprotegidos. Dos países sacrificados neste estúpido jogo global, com os milhares de explorados do capitalismo selvagem que pulula nos confins das Caraíbas, passa por África e tem como epicentro todo o continente asiático.
Luís Filipe Menezes
in Diário de Notícias, 29 de Maio de 2010