Soares tem razão

Faz hoje 25 anos que Portugal aderiu à União Europeia. Esse acto solene teve dois protagonistas, que então representavam o centro moderno pró-europeu. Mário Soares, secretário- -geral do PS e primeiro-ministro, e Rui Machete, presidente do PSD e vice-primeiro-ministro.

Paradoxalmente, Mário Soares, indiscutivelmente o principal artífice do processo de integração, fez questão de se afastar ostensivamente de todo o tipo de comemorações mais efusivas. Como justificação subliminar, traduzindo as suas ancestrais frontalidade e coragem, fica a ideia de que não consegue encontrar motivos para ultrapassar a sua decepção em relação a esta Europa e ao seu rumo.

Acompanho Mário Soares neste sentimento. Não tenho orgulho nesta Europa, bem distante da Europa de Miterrand e Khol, a anos-luz do projecto lúcido de Jacques Delors. A Europa da década de 80 afirmava-se no mundo sob o comando de dirigentes com desígnio e ideias claras. Uma Europa de homens de Estado.

A Europa de hoje é a da burocracia cinzenta e aparelhista de Bruxelas, das toneladas de funcionários medíocres e acomodados, dos líderes políticos que só governam para as sondagens, dos primeiros-ministros com sorriso próprio de um bom anúncio de pasta dos dentes, mas que conseguem fazer longos ciclos políticos sem defender uma única ideia, força perceptível e mobilizadora, sem evidenciar uma identificação mínima com princípio e valores. Um espécie de denominadores comuns de tudo e de coisa nenhuma.

A crise que hoje atravessa toda a Europa, que primeiro atingiu os mais pobres e indefesos mas que vai chegar rapidamente a casa dos mais abastados - vejam-se as medidas de austeridade absoluta anunciadas esta semana por essa pálida contabilista sucessora de Helmut Shmidt -, é filha dessa falta de dimensão de Estado da maioria dos responsáveis pelo projecto europeu.

Como é possível que não entendam que a Europa é a grande sacrificada de uma globalização que no Velho Continente só serve as multinacionais do seu núcleo central mais próspero? Apesar de já estar cansado de o repetir, continuo firmemente convencido de que o futuro da Europa será de miséria, desemprego e conflito, caso não inverta o actual quadro de referência. Uma espécie de museu da história e da cultura universais. A liberdade de circulação, nomeadamente na economia, tem de ser indexada, o mais tardar na próxima meia dúzia de anos, à harmonização social e ambiental e ao respeito pelos direitos humanos.

Como é possível que também não compreendam que um grande espaço que evoluiu para um projecto de vida comum, incluindo o de conviver com uma moeda única, necessita de um mínimo de comando “federal”? O somatório de quase uma trintena de políticas díspares, tantas vezes contraditórias, é incompatível com o projecto europeu. É fácil imaginar qual seria o destino dos Estados Unidos da América, no dia em que cada um dos seus 50 estados tivesse políticas de defesa, de segurança, de justiça, de emprego e orçamentais completamente diversas. Só por anedota alguém imagina esse cenário, mas é ao ritmo desse ridículo que está ser conduzido este espaço de mais de trezentas mil almas.

Que o desalento compreensível de Mário Soares sirva para que pelo menos os dirigentes nacionais reflictam e, com a sua voz, hoje mais fraca e desacreditada, ainda possam ajudar a tocar a rebate nos corredores de Estrasburgo e Bruxelas.

Luís Filipe Menezes

in Diário de Notícias, 12 de Junho de 2010

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