O meu Mundial de A a Z

No início deste Mundial escrevi uma crónica azeda e pessimista sobre o que perspectivava ser o comportamento da Selecção Nacional no primeiro jogo contra a Costa do Marfim. Hoje, em coerência com o que então disse, encerro o dossiê com este A a Z:

A - Ambição - Foi a falta dela que marcou o essencial da presença de Portugal na África do Sul. De que é exemplo a opção técnica, que levou a substituir um avançado puro, Nani, por um jogador defensivo e tecnicamente limitado, Ruben Amorim.

B - Benquerença - Olegário Benquerença fez um óptimo mundial e demonstrou que a nossa arbitragem não é tão má quanto alguns querem fazer crer. Nomeadamente quando comparada com a da legião sul-americana, que nos calhou. Aliás é lamentável que a ambição de ocupar cargos internacionais tenha silenciado, como já é habitual, a indignação e o protesto dos responsáveis federativos . O senhor uruguaio que já nos havia martirizado há quatro anos nos jogos com Angola e França, voltou a fazer das suas. Cartões amarelos, principalmente o de Cristiano Ronaldo, verdadeiramente caricatos, livres à entrada da área da Costa do Marfim ignorados, um golo mal anulado. Demais para um jogo pacífico. A tendência hábil “pró-castelhana” do senhor uruguaio do último dia só faz valorizar o desastre da actuação do mexicano que nos calhou em sorte no Portugal - Brasil. Uma expulsão perdoada num corte com a mão ainda na primeira parte, três livres esquecidos sobre a linha da área, um penalty perdoado foram a marca da sua desonestidade. E nós calados e submissos. Apesar da nossa actuação sofrível o campeonato seria outro sem estas aberrações latino - americanas.

C - Centrais - Ricardo Carvalho e Bruno Alves estiveram a um grande nível. Uma das melhores duplas de centrais deste mundial.

D - Desilusão. O CR7. Extraordinário jogador, super atleta, com prestações fantásticas no Manchester United e no Real Madrid. Um desastre na selecção. Desastre no rendimento desportivo, desastre na atitude displicente em relação aos colegas e ao público, desastre na falta de maturidade evidenciada enquanto capitão de equipa. Começa a aperceber-se o porquê da selecção só se ter apurado na sua ausência. Tem pouco tempo para enterrar a postura vaidosa que lhe está a começar a minar a imagem e a carreira.

E - Eduardo - Que grande carácter demonstrou ter o guarda-redes português. Esteve tecnicamente impecável, sereno, transmitindo confiança e vontade de vencer por todos os poros. Que diferença em relação a um capitão amorfo que nem sequer, para ser mais uma vez diferente, cantou o hino nacional.

F - FIFA - Só pensa em cifrões e protege os mais fortes. Lastimável a sua complacência com os erros de arbitragem, teimosa a resistência à inadiável introdução de novas tecnologias de apoio ao jogo, laxista a forma como assume a transformação das selecções em bando de mercenários internacionais (a “pura” selecção germânica só tem onze jogadores não nascidos na Alemanha!!!)

G- Golos - Rarearam na Selecção portuguesa. Apesar dos 7 à Coreia do Norte, ficamos a zero nas três outras partidas. Continua a faltar uma escola de formação específica em Portugal para criar os decisivos homens de área.

H- Hecatombe - A do futebol europeu. Só seis equipas nos oitavos -de-final. França e Itália de fora. Estão todas a pagar a factura de verem as suas principais equipas entrarem em campo, muitas vezes, sem um único jogador nacional. Brasil, Argentina e Uruguai, os três grandes exportadores sul - americanos, agradecem.

I-Itália - Pela primeira vez na história dos mundiais, um campeão do mundo em título não passou a 1ª fase. A “squadra azzurra” chegou a Roma corada de vergonha.

J-Joanesburgo - A capital política da África do Sul. Onde vive Mandela. E onde falta ainda muito para se cumprir o sonho do ex-líder do ANC.

K - Kruger - Um parque selvagem que é incontornável na África do Sul.

L-Liedson - O “levezinho” desta vez não resolveu nada. De quem foi a culpa?

M- Maradona - É já a grande figura deste Mundial. É meio louco? Talvez. Mas é igualmente mobilizador, carismático, e um verdadeiro líder que transmite a todos a emoção do futebol.

N-Nelson. Outra vez Mandela. Ou Madiba. Ainda a principal referência da África do Sul. Espera-se que esteja presente na final.

O-Obviamente- Demitia-o? O silêncio de Madaíl é ensurdecedor.

P-Portugal - É indispensável encontrar uma selecção jovem que termine com a invasão “estrangeira” desqualificada - e que saiba lidar com a nova realidade pós - acórdão Bosman e pós - globalização.

Q-Quase - O nosso fado. “Quase” que ganhamos à Espanha. Pois.

R- Revelação - Fábio Coentrão foi a grande, e boa novidade, da selecção. Afirmou-se como o mais pendular, agressivo, e consequente jogador português. Pelo menos mais um ano de Benfica fazia-lhe muito bem.

S- Saudade - Da geração de Figo, do talento puro de Rui Costa, da raça de João Vieira Pinto, da eficácia de Pauleta. Uma pena o tempo não andar para trás.

T-Tevez - Um avançado à boa maneira argentina eque já é uma das figuras do Mundial.

U-Uruguai - O regresso aos anos de ouro de 1930 e 1950. Que loucura em Montevideu se forem campeões do Mundo pela terceira vez.

V-Vuvuzelas - De colocar a cabeça em água de qualquer adepto de futebol que se preze. Mas tradições e culturas não se discutem.

W-Wesley- Nome próprio de Sneijder. Depois de campeão italiano e campeão europeu, pode ser campeão do mundo. Agradeça a Mourinho.

X-Empate - Quem joga para empatar arrisca-se a perder. Foi o caso.

Y-Yes - We can’t.

Z-Zero - Com a Costa do Marfim, com o Brasil, com a Espanha.

in Jornal de Notícias, 4 de Julho de 2010

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