A família socialista portuguesa reuniu-se à volta dos seus ex-secretários-gerais, a propósito da realização das suas jornadas parlamentares.
Após quase 12 anos de governação, desde 1996, os últimos cinco ininterruptos, o mínimo que se exigiria seria um humilde discurso de expiação de pecados. Contudo, com um enorme desplante, assistiu-se a um patético cerrar de fileiras contra o “miserável liberalismo que está a arruinar o mundo, a comprometer o projecto europeu e a condenar Portugal à suprema penúria”.
Extraordinário! Aquilo a que os socialistas chamam de excesso de liberalismo causador da presente desgraça foi consubstanciado nas políticas suicidárias de uma Europa sem rumo, que culminaram com o ineficaz e minimalista Tratado de Lisboa. É bom recordar que, nessa altura, para os líderes socialistas, era tudo “porreiro, pá”!
Políticas como a que era apontada há quase uma década pela Agenda de Lisboa, que, ingenuamente, acreditava que políticas exigentes de educação, ciência e modernização tecnológica contraditariam o descalabro económico e social provocado por uma globalização insensata.
Eram “porreiras, pá” políticas que não quiseram entender que um alargamento apressado exigia mais federalismo e políticas comuns em áreas estruturais como o são a diplomacia, a defesa e a segurança interna.
Políticas que aceitaram a leviandade de uma moeda única poder resistir à ausência de uma política orçamental comum e de políticas fiscais mais harmonizadas.
Este pré-desastre europeu, incisivamente parodiado nos números desta semana das incontornáveis Newsweek e Time - a Time chega mesmo a prognosticar a irreversibilidade da crise no espaço geopolítico que qualifica como “o continente perdido”! -, consolidou-se com a década de lideranças de famosos liberais (?!) e ortodoxos adeptos de todas as reformas conducentes a este apocalipse. Blair, Zapatero e Sócrates estiveram entre os mais marcantes entusiastas desse caminho, permanentemente idolatrado por um optimismo de vistas curtas que desembocou na actual realidade.
E, se foi este o quadro de co- -responsabilização no contexto europeu, é ainda menos desculpável ver os socialistas recusarem a simples aritmética que faz com que seis anos e meio de guterrismo e cinco de socratismo perfaçam uma dúzia de anos de reformas globalmente fracassadas, que em nada prepararam o País para os maus ventos que agora sopram do exterior.
Até parece que não foi neste ciclo “neoliberal” que avançaram as privatizações mais suculentas, que se instituíram de forma ligeira estímulos à preguiça institucionalizada - como os que resultam do modelo errado de aplicação do rendimento social de inserção, que mais laxista se foi na supervisão financeira, que mais permissividade se semeou no sistema educativo.
A sessão de prestidigitação socialista provocaria o rubor pletórico de inveja de David Copperfield, caso este tivesse assistido à fase conclusiva do pré-referido conclave. Aquele grupo de virginais homens de esquerda terminavam por queimar o maldito socialismo numa fogueira regeneradora. Fogueira que procura tacticamente apaziguar os ânimos da esquerda estalinista, que tenta, contrariadamente, parecer dar uma mão salvadora à pré-derrotada candidatura presidencial de Manuel Alegre e que se atira ao discurso inteligente e fracturante de Pedro Passos Coelho.
Melhor empurrão não poderia ter o essencial da mensagem social-democrata. Ao qualificar de perigosas e liberais as reformas que apontam para a inevitabilidade da flexibilização da legislação liberal, para a necessidade de dinamizar novos avanços no sentido de trazer para a iniciativa privada novos sectores da economia ou para a definição do papel paralisador do Estado em muitas das golden shares, o PS só evidencia a sua incapacidade de se auto–reformar. Esta clivagem, desastradamente exacerbada por um socialismo em pânico, só acelerará a afirmação do novo PSD.
Só o primeiro-ministro é que ainda não percebeu que isto já não está “porreiro, pá”. Todos os outros já o entenderam e a sua solidariedade presencial tem o significado da presença eticamente louvável nas exéquias de um fracassado projecto de família.
Ressalvo nesse lote a figura de Mário Soares. Não faltaram, ao longo dos últimos anos, os avisos lancinantes do mais corajoso e lúcido socialista europeu.
Luís Filipe Menezes
in Diário de Notícias, 10 de Julho de 2010