Como estudante de Medicina tive a felicidade de apanhar aquela que foi porventura a última geração de “catedráticos à séria”. Gente com uma preparação muito sólida na sua especialidade de adopção, mas que transpirava uma cultura geral inacreditável e que, por razões eventualmente ligadas à vida tranquila de uma época sem telemóveis, TV, ou Facebook, tinha uma pensamento próprio muito reflexivo sobre o mundo e a vida.
Homens como Joaquim Bastos, Emídio Ribeiro, ou “jovens” como Walter Osswald e Daniel Serrão, conseguiam transformar as odiadas aulas teóricas em momentos de intensa experiência pessoal.
Foi ao sábio e experiente professor de Propedêutica Médica, uma espécie de “House” complacente e humano, que ouvi muitas das “tiradas” cujo dogmatismo auto convencido e afirmativo as tornavam numa incontornável norma de conduta, apesar de não constarem em nenhum livro de texto do mundo.
Um dia, a seguir à observação de uma ressuscitação de um doente em paragem cardiorrespiratória, ouvi-lhe algo que me deixou perplexo: “Quando acharem que não conseguem resultados numa situação aparentemente perdida, não fiquem paralisados, façam qualquer coisa, façam o que acharem que faz sentido. Mesmo que tal pareça extravagante!”
Anos depois, enquanto jovem médico em serviço de urgência no hospital da minha terra - Ovar, fui confrontado com uma situação onde pude aplicar a sábia norma do velho “prof”.
Uma curiosa de aldeia, que dava injecções ao domicílio na praia do Furadouro, cometeu o “pequeno” erro de injectar por via endovenosa um poderoso antiálgico só administrável por via muscular. A padecente, uma jovem mulher de etnia cigana, entrou em choque, estado em que me chegou ao hospital.
Ao lado, na sala de espera, a família debitava mensagens de morte em direcção à criatura que negligentemente tinha dado a picadela fatal. No consultório, a pobre mulher agarrava-se-me às pernas, vendo-me com o único milagroso salvador da sua via face à vendetta anunciada.
Aquela cena espevitou-me e, face a uma doente clinicamente morta - em paragem cardiorrespiratória, sem pulso, sem tensões, fiz de imediato aquilo que o protocolo mandava. Mesmo assim algo de muito ousado para os hábitos de um hospital de província: as manobras habituais de ressuscitação e uma imediata injecção intracardíaca do medicamento indicado, na dose e diluição aconselhadas. Resposta zero. A mesma resposta obtida ao fim da terceira tentativa, a última segundo os protocolos vigentes. Nesse momento, quando a experiente enfermeira Lucília se preparava para tapar a doente, mudei de ideias, intensifiquei as manobras ressuscitadoras e comecei a injectar a substância acima referida em doses triplas e sem diluição! Face à cara de pânico da enfermeira, encolhi os ombros e continuei - afinal, ela estava morta!
À terceira tentativa daquele “excesso”, o electrocardiógrafo começou lenta e progressivamente a mostrar tímidos batimentos cardíacos. Ao fim de mais alguns minutos, embora inconsciente, a padecente estava com um pulso amplo e estável, milagrosamente viva. Contra todas as minhas expectativas, minhas e dos livros, pois após aquela longa paragem as lesões e sequelas deviam ser múltiplas e terríveis. No entanto, nesse fim de tarde, recuperou a consciência, à noite restabelecia a normalidade de uma função renal circunstancialmente afectada, na manhã seguinte saía do hospital pelo seu pé.
No dia seguinte, ela e a curiosa, que assim escapou a um castigo fatal, agradeciam-me. Remeti-as para o “Santo Emídio”, o meu velho mestre, em quem me inspirei para fazer o que “não podia ser feito” por ser “politicamente incorrecto”.
Porquê esta historieta dos meus Retalhos de Vida de Médico? Porque o nosso país está como estava aquela minha doente, em coma profundo. Também em relação a ela, as receitas indicadas são as de falta de arrojo.
Médicos conservadores e timoratos - essas coisas vagas e sem rosto chamadas “principais agentes económicos” ou “mercados”, aconselham prudência e esperam chorar pelo morto o mais tarde possível. Outros da mesma índole, politólogos, euroburocratas e os pequenos partidos de oposição, sempre crentes na tese nunca cumprida de que uma longa agonia dos Portugueses os fará crescer, silenciam-se e choram pelo doente.
Todos eles paralisados pelo medo de intervir e assumir responsabilidades, todos desesperançados e sem soluções, todos à espera do milagre.
Acho que o caminho a seguir é o oposto. Injectar as drogas certas em quantidade e qualidade, sem receio de matar o que está morto. O único risco será o de ressuscitar o País.
Afirmar convicções de imediato, a começar pelo debate do Orçamento do Estado. Não temer eleições se elas tiverem de acontecer, ser ofensivamente reformista nas propostas e, posteriormente, na governação.
Face à letargia comatosa, não há que ter receio de mostrar a nossa diferença, nossa do PSD, em matéria de legislação laboral, reforma do Estado social, de descentralização e regionalização, de diminuição do peso do Estado no controlo da economia, de descorporativização da justiça.
Seria esse o caminho que seguiriam “médicos” corajosos como Sá Carneiro e Cavaco Silva. É esse o estilo de intervenção de Passos Coelho, que não se deve intimidar pelos dilates dos Augustos Santos Silva deste mundo. Ou não terá sido este ministro da Defesa que há quatro anos clamava alto e bom som que a eleição do actual Presidente da República constituiria um golpe de Estado e o regresso do fascismo!?
Ele, e muitos outros, não são muito crentes. Eu sou, nomeadamente nos santos voluntaristas e pragmáticos, nos Santos Emídios.
Luís Filipe Menezes
Diário de Notícias, 22 de Agosto de 2010