Em dia de leitura da sentença do processo Casa Pia, vou fugir à torrente informativa que vai surgir à volta deste tema e vou falar de futebol. Mais precisamente do processo Carlos Queiroz.
Porque gosto de futebol, porque sou fã incondicional da selecção nacional, porque compreendo que o futebol/desporto/espectáculo é hoje uma actividade económica importante de dimensão planetária.
Vou ainda abordar este assunto porque ele reflecte o essencial do quotidiano da nossa vida colectiva. Como na justiça, na economia, no funcionamento do Estado, no caso Carlos Queiroz coexistem, em simultâneo, a má gestão da coisa pública, as perseguições político-partidárias, os compadrios obscuros, a incompetência, o desrespeito pela dignidade de cada um, a trapalhada colectiva institucionalizada. Tal futebol, tal País.
Comecemos pelo princípio.
Carlos Queiroz é um dos pensadores/organizadores mais bem preparados e considerados no mundo do futebol mundial. É verdade que coleccionou alguns insucessos como treinador principal, mas o trabalho de base conseguido com as selecções juniores na década de 90 e o trabalho de retaguarda no Manchester United falam por si. (É preciso também recordar que foi treinador principal do mais importante e complexo clube do século XX, o Real Madrid.)
Assim, a sua contratação para substituir Scolari pareceu-me natural e defensável.Concluído o ciclo desportivo do Mundial 2010 e considerando os resultados da selecção, não haveria razão suficiente para uma avaliação irremediavelmente negativa. A qualificação para a África do Sul foi sofrida, mas nada que não tenha acontecido várias vezes, incluindo com o próprio Scolari. A prestação no torneio foi mediana, mas chegámos aos oitavos-de-final e caímos perante o campeão do mundo. Para além de que Queiroz tomou conta da selecção numa mudança de ciclo, em que estavam a terminar a carreira os talentos da última década. Nada que justificasse, pois, um despedimento coercivo.
É verdade que, com ou sem razão, com mais ou menos verdade, vieram a público vários factos controversos da caminhada dos últimos dois anos: as quezílias públicas com alguns agentes desportivos, a separação entre jogadores e outros elementos da equipa nas refeições quotidianas, os “casos” Nani e Deco, o excesso de protagonismo e confiança de Cristiano Ronaldo nas relações com a equipa técnica - não é aconselhável um jogador tratar publicamente por tu cá tu lá o treinador principal -, as opções técnicas nos jogos com o Brasil e com a Espanha.
Todavia, todos eles em conjunto, o máximo a que poderiam dar origem seria a uma conversa ponderada com o seleccionador sobre a bondade da sua continuidade à frente do próximo projecto. Com elevação e bom senso.Mas não foi nada disso que aconteceu. Ao contrário, sucedeu-se um conjunto de peripécias que envergonham o futebol português e o País.
A primeira delas foi o inquérito a Carlos Queiroz ser aparentemente desencadeado por uma declaração anunciadora do senhor secretário de Estado do Desporto. A partir daí, com ou sem razão, ficou o anátema de que o ataque a Carlos Queiroz tem motivações político-partidárias.
Depois, conhecidos os factos, ainda mais se avolumaram as suspeitas. Queiroz teria sido deselegante quando manifestou o seu descontentamento em relação ao horário excessivamente matutino escolhido para realizar um controlo antidoping.Teria insultado Luís Horta, responsável máximo da ADoP, e com isso teria perturbado a boa recolha de urina para análise! Ridículo!!! Por pior que fosse o insulto - que apesar de condenável não terá sido tão violento quanto isso -, não é inteligível que as flores de estufa que foram à Covilhã ficassem tão atarantadas que pudessem confundir urina com sumo de laranja!!! Esta atitude só reforça a ideia de que alguém queria sanear o seleccionador a qualquer preço.
Finalmente, após um processo em que os órgãos de justiça da federação minimizaram a culpa, mais uma vez após um comentário do responsável governativo pelo desporto, o tal organismo justiceiro ligado ao controle antidopagem vem multiplicar a pena por seis e assim dar mais uma vez a impressão de que a decisão já estava tomada noutras instâncias (que raio de País que vive com estes entorses! Aplicação de penas por entidades não jurisdicionais! Penas aplicadas sem audição dos alegados culpados! Não recorríveis! Enfim…). Procedimento fatalmente suspeito.
Mas o principal é que tudo isto seria evitável. Com outras opções de política contratual com outras pessoas, com outros organismos e outro funcionamento das instituições.
Um seleccionador tão bem pago devia ser contratado ciclo a ciclo. Ciclo do Mundial, avaliação, ciclo do Europeu, avaliação. Uma equipa federativa devia ser periodicamente renovada e a limitação de mandatos não devia ser um “privilégio” exclusivo dos políticos. Há responsáveis federativos que estiveram em Saltillo?!O controlo antidoping não é um processo de insensato policiamento e os seus responsáveis não podem movimentar-se com a arrogância com que o fazem (um controlo tanto pode ser feito às 07.00, como às 10.00 ou como no final de um treino, para já não falar das barragens a camionetas de atletas e outras bizarrias que têm acontecido por aí).
Finalmente, aconteça o que acontecer, prescindir de Queiroz como seleccionador pode ser discutível, mas prescindir de Queiroz como organizador e promotor do futebol é um desperdício.
Enxovalhar o seu presente e o seu passado é um acto de ingratidão e repugnante falta de vergonha e falta de auto-estima colectiva. Quem dizima assim os seus melhores diminui-se como povo.
in Diário de Notícias, 4 de Setembro de 2010